segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

As relações perigosas, Laclos.

“Quem deixaria de estremecer pensando nas desgraças que pode causar uma só relação perigosa! E quantas mágoas se evitariam refletindo mais nisso! Que mulher não fugiria às primeiras palavras de um sedutor?”

É inacreditável como em três séculos as aventuras libertinas dos homens tenham mudando apenas de vocabulário.

As relações perigosas tem como enredo um assunto tão contemporâneo e ordinário que beira a inutilidade. O romance escrito no século XVIII pelo monsier Choderlos de Laclos, general do exército francês, se assemelha em demasia às peripécias tolas que todos nós experimentamos em algum momento de nossas vidas.

Os protagonistas libertinos Visconde de Valmont e Marquesa de Merteuil são uma versão mais refinada dos conquistadores baratos e lascivos que encontramos por aí. Mas apesar de conhecermos o carater, ou a falta dele, nessas personagens, somos levados, ao longo da leitura, a beber da mesma fonte voluptuosa que elas bebem, e o desejo por uma conquista por vezes fácil nasce ao avançar cada linha, cada carta, mesmo que esse desejo seja despedaçado com o final tão trágico e tão moral quanto o que Laclos nos oferece.

Um livro recheado de maldade, mentiras, intrigas, chantagens e relações libertinas não poderia ter um final pior do que o castigo moral aos vilões que proporcionaram tanto prazer ao leitor dessa obra prima. Onde há graça em encher páginas e mais páginas com a verdade que nos cerca e depois minimizar a monstruosidade das relações apaixonadas com um falso moralismo e uma justiça “divina”?

A consquista da Presidenta de Tourvel para massagear o ego do Visconde de Valmont se transforma magicamente em amor verdadeiro e ambos morrem por esse sentimento mais cretino do que aquele que o motivou, a luxiria. Quanto a Marquesa de Merteuil, perversa e leal a sua perfídia até o último momento, é vítima de uma doença que a deixa deformada e como se não bastasse, ainda perde toda a fortuna que lhe seria de direito. Um final piegas, chato e muito cristão.

À morte da Presidenta de Tourvel não me oponho, afinal sabemos que todas as mocinhas que creem em um amor suficientemente forte para romper com quaisquer grilões acabam por esfarelar-se, de um jeito ou de outro. À ida desesperada da pequena Cécile de Volanges para o convento me enfureceu em demasia, depois de tantas conversas com a Marquesa, tantas noites acaloradas com o Visconde, e um amor fracassado com o Cavaleiro Danceny ela optou pelo destino mais sombrio e terrível que pode esperar por uma mulher: se privar de todos os prazes carnais que o mundo pode oferecer.

Apesar do final aborrecedor, me apaixonei intensamente pela narrativa. A riqueza de detalhes e a falta deles ao mesmo tempo, dão um lugar privilegiado ao espectador, permitindo, por ocasião das cenas simultaneas, os comentários mais sórdidos e debochados. A frieza de umas personagens casada com a ingenuidade de outras torna a experiencia de leitura mortalmente perigosa.

Por fim, indico essa obra a qualquer pessoa cujo assunto “amor” ou “vingança” atraia um pouco. É absurdo como boa literatura pode custar pouco, às vezes: no site Estante Virtual encontramos exemplares em perfeito estado desse livro por R$ 1,00 ou R$ 2,00. É sem dúvida um investimento que vale a pena.

Deixo para degustação a carta que o Visconde de Valmont mandou à Presidenta de Tourvel para romper com ela seu romance tão intenso e breve, rompimento esse que a levou à loucura e à morte.



P.S.¹ Peço, pelos deuses, que não assistam “Segundas Intenções” com o intuito de achar ali qualquer ligação com o livro, porque a única coisa que do livro ali encontramos são os nomes de algumas personagens.

P.S.² Embora eu não goste de adaptações livro-filme, recomendo “Ligações Perigosas”, de 1988 dirigido por Stephen Frears, que mantem o enredo do filme sem nenhum acréscimo, que seria desnecessário, e também algumas partes do texto original.



E a dita carta:

“ Nós nos aborrecemos de tudo, meu anjo, é a lei da natureza, não é minha culpa.
Se hoje, pois, me aborreço de uma aventura que me ocupou durante quatro meses mortais, não é minha culpa.
Se, por exemplo, tive tanto amor quanto tiveste virtude, e já é dizer muito por certo, nada de espantoso em que um tenha acabado ao mesmo tempo qua a outra. Não é minha culpa.
Segue-se daí que há algum tempo te engano: mas, em verdade, tua impiedosa ternura até certo ponto me obriga a isso. Não é minha culpa.
Hoje, uma mulher que amo perdidademente exige que te sacrifique. Não é culpa minha.
Sinto muito bem que te dou uma excelente oportunidade para falar em perjúrio; mas, se a natureza só concedeu aos homens constância enquanto dava obstinação às mulheres, não é culpa minha.
Crê em mim, escolhe outro amante como eu escolhi outra amante. Este conselho é bom, muito bom; se o achares ruim, não é culpa minha.
Adeus, meu anjo, eu te possuí com prazer, deixo-te sem pesar; voltarei a ti, talvez. O mundo é assim. Não é culpa minha.”




Brindemos aos “Don Juan” que nos cercam, nos enchem de prazer e nos deixam...sem pesar.