sábado, 8 de setembro de 2012

As mão sujas

Não recuperável.


Hugo: Achava-me novo de mais; quis pendurar um crime no pescoço como uma pedra. E receava que ele fosse muito pesado. Grande erro: é leve, horrivelmente leve. Não tem peso. Olha para mim: envelheci, passei dois anos à sombra, separei-me da Jessica, e hei-de levar esta cômica vida de perplexidade , até que os nossos companheiros se encarregarem de me liberar. Tudo isso deriva do meu crime, não é verdade? E, todavia, ele não tem peso, nem o sinto. Nem ao pescoço, nem às costas, nem no coração. O meu crime tornou-se o meu destino, percebes? Vai governando a minha vida, de fora, mas eu não posso vê-lo, nem tocar-lhe. Não é meu; é uma doença mortal que vai matando sem fazer sofrer. Onde é que ele está? Existe porventura? Entretanto, disparei. A porta abriu-se... Eu gostava do Hoederer, Olga. Nunca gostei tanto de ninguém na vida. Gostava de o ver e de o ouvir, gostava das mãos e da cara dele, e quando estava com ele serenavam todas as minhas tempestades. Não é o meu crime que me mata, é a morte dele (Pausa.) E aqui está. Não aconteceu nada. Nada. Passei dez dias no campo e dois anos na prisão; não mudei; continuo tão falador como antes. Os assassinatos deviam fazer um distintivo. Uma papoila na botoeira. (Pausa.) Bom. E afinal? Conclusão? 



Em As mãos sujas, Jean-Paul Sartre

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