quarta-feira, 25 de abril de 2012

Um chamado João


João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
No exílio da linguagem comum?

Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas
irenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?

Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multivoca?

João era tudo?
Tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
desligando para fora, falando?
Guardava rios no bolso
cada qual em sua cor de água
Sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
Nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para cantar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
E por isso reveste de véus?
mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precipites prodígios acudindo
A chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
Do abracadabra, sésamo?
reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?

Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?

Tinha parte com... (sei lá
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabugeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João
e se João existia
deve pegar.
                                               Carlos Drummond de Andrade

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