quinta-feira, 27 de setembro de 2012

gracefully

a caminho do infinito...

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

a volta - ezra pound


a volta

ah, ei-los que retornam; repara os hesitantes
         movimentos, os vagarosos pés,
         pertubação nos passos, inseguras
         oscilações!

ah, ei-los que retornam, um por um,
         temerosos, como se maldespertos;
         como se indecisa a neve
         murmurasse no vento e quase
         emendasse o caminho;
Eram estes
           'alados-de-Horror'
           invioláveis.

deuses de alparca alada!
com eles os mastins de prata,
         farejando o rastro de ar!

isca! isca!
          eram estes os célebres na pista;
os de faro afiado; estes
eram almas de sangue.

vagarosos no ajoujo,
          ajoujadores pálidos!


(tradução de Mário Faustino)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Je Veux

Je Veux d'l'amour, d'la joie, de la bonne humeur
c' n'est pas votre argent qui f'ra mon bonheur,
moi j'veux crever la main sur le coeur


Zaz




terça-feira, 18 de setembro de 2012

Sempre estrangeiro



"Sacudi o suor e o Sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça."

sábado, 8 de setembro de 2012

As mão sujas

Não recuperável.


Hugo: Achava-me novo de mais; quis pendurar um crime no pescoço como uma pedra. E receava que ele fosse muito pesado. Grande erro: é leve, horrivelmente leve. Não tem peso. Olha para mim: envelheci, passei dois anos à sombra, separei-me da Jessica, e hei-de levar esta cômica vida de perplexidade , até que os nossos companheiros se encarregarem de me liberar. Tudo isso deriva do meu crime, não é verdade? E, todavia, ele não tem peso, nem o sinto. Nem ao pescoço, nem às costas, nem no coração. O meu crime tornou-se o meu destino, percebes? Vai governando a minha vida, de fora, mas eu não posso vê-lo, nem tocar-lhe. Não é meu; é uma doença mortal que vai matando sem fazer sofrer. Onde é que ele está? Existe porventura? Entretanto, disparei. A porta abriu-se... Eu gostava do Hoederer, Olga. Nunca gostei tanto de ninguém na vida. Gostava de o ver e de o ouvir, gostava das mãos e da cara dele, e quando estava com ele serenavam todas as minhas tempestades. Não é o meu crime que me mata, é a morte dele (Pausa.) E aqui está. Não aconteceu nada. Nada. Passei dez dias no campo e dois anos na prisão; não mudei; continuo tão falador como antes. Os assassinatos deviam fazer um distintivo. Uma papoila na botoeira. (Pausa.) Bom. E afinal? Conclusão? 



Em As mãos sujas, Jean-Paul Sartre

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Lucidez

Lucidez s.f. 1. Qualidade de quem é lúcido. 2. Clareza, brilho. 3. Clareza de inteligência. Lu.ci.dez

Lúcido adj. 1. Que brilha, brilhante, claro. 2. Que tem clareza de inteligência. 3. Que mostra uso da razão. Lú.ci.do


domingo, 2 de setembro de 2012

Agora Há

'Já mexeu na sua vida, já varreu sua razão'

Pra mim, sem brisura.

angustia




quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Hiatos

Tantos buracos que sejam, tantos queremos tapar.
Hiatos nunca são justos. Prefiro ditongos. Tritongos embaralham a língua.

Parece não haver lugar. Agora há?

sábado, 28 de julho de 2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Todesfuge

Por maior precisão: não soa mais, agora sussurra. 


livre [com (dos) os] outros

"Só possuo meu corpo; um homem inteiramente sozinho, que só tem o seu corpo, não pode reter as lembranças; elas passam através dele. Não deveria me queixar: tudo o que quis foi ser livre." A Náusea




Outro, outra aurora. Quiça alvorecer.


Alguns se isolam por rejeição, uns por opção e outros por acidente. Definha-se e nem percebe-se. Ou percebe-se  dolorosamente, tão demoradamente que é possível ver soltar de si escamas a juntar-se à palha e espalhar-se ao vento. Não há mais corpo junto ao verbo. Sempre com a mesma canção. 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Ao mais, de menos.

É de jeito que de repente brota gente que há pouco está e parece que sempre lá esteve. 


ao prosador...


"Direitinho declaro o que, durante todo tempo, sempre mais, às vezes menos, comigo se passou. Aquela mandante amizade. Eu não pensava em adiação nenhuma, de pior propósito. Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente - tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos." 

Grande Sertão: Veredas

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Ahhh meu Ser-tão!


Candeeiro Encantado
Lenine

Lá no sertão
Cabra macho não ajoelha
Nem faz parelha
Com quem é de traição
Puxa o facão, risca o chão
Que sai centelha
Porque tem vez
Que só mesmo a lei do cão...
É Lampa, é Lampa, é Lampa
É Lampião
Meu candeeiro encantado


Enquanto a faca não sai
Toda vermelha
A cabroeira
Não dá sossego não
Revira bucho
Estripa corno, corta orelha
Quem nem já fez
Virgulino, o Capitão...
É Lampa, é Lampa, é Lampa
É Lampião
Meu candeeiro encantado


Já foi-se o tempo
Do fuzil papo amarelo
Prá se bater
Com poder lá do sertão
Mas lampião disse
Que contra o flagelo
Tem que lutar
Com parabelo na mão...
E é Lampa, é Lampa, é Lampa
É Lampião
Meu candeeiro encantado


Falta o cristão
Aprender com São Francisco
Falta tratar
O nordeste como o sul
Falta outra vez
Lampião, Trovão, Corisco
Falta feijão
Ao invés de mandacaru
Falta a nação
Acender seu candeeiro
Faltam chegar
Mais Gonzagas lá de Exú
Falta o Brasil
De Jackson do Pandeiro
Maculêlê, Carimbó
Maracatu...
É Lampa, é Lampa, é Lampa
É Lampião
Meu candeeiro encantado


Aqui, a música que me arrancou arrepios hoje. 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

sobreser



Não ser ninguém-a-não-ser-você-mesmo,
num mundo que faz todo o possível, noite e dia,
para transformá-lo em outra pessoa –
significa travar a batalha mais dura
que um ser humano pode enfrentar;
e, essencialmente, jamais parar de lutar

E. E. Cummings

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Um chamado João


João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
No exílio da linguagem comum?

Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas
irenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?

Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multivoca?

João era tudo?
Tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
desligando para fora, falando?
Guardava rios no bolso
cada qual em sua cor de água
Sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
Nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para cantar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
E por isso reveste de véus?
mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precipites prodígios acudindo
A chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
Do abracadabra, sésamo?
reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?

Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?

Tinha parte com... (sei lá
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabugeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João
e se João existia
deve pegar.
                                               Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

As relações perigosas, Laclos.

“Quem deixaria de estremecer pensando nas desgraças que pode causar uma só relação perigosa! E quantas mágoas se evitariam refletindo mais nisso! Que mulher não fugiria às primeiras palavras de um sedutor?”

É inacreditável como em três séculos as aventuras libertinas dos homens tenham mudando apenas de vocabulário.

As relações perigosas tem como enredo um assunto tão contemporâneo e ordinário que beira a inutilidade. O romance escrito no século XVIII pelo monsier Choderlos de Laclos, general do exército francês, se assemelha em demasia às peripécias tolas que todos nós experimentamos em algum momento de nossas vidas.

Os protagonistas libertinos Visconde de Valmont e Marquesa de Merteuil são uma versão mais refinada dos conquistadores baratos e lascivos que encontramos por aí. Mas apesar de conhecermos o carater, ou a falta dele, nessas personagens, somos levados, ao longo da leitura, a beber da mesma fonte voluptuosa que elas bebem, e o desejo por uma conquista por vezes fácil nasce ao avançar cada linha, cada carta, mesmo que esse desejo seja despedaçado com o final tão trágico e tão moral quanto o que Laclos nos oferece.

Um livro recheado de maldade, mentiras, intrigas, chantagens e relações libertinas não poderia ter um final pior do que o castigo moral aos vilões que proporcionaram tanto prazer ao leitor dessa obra prima. Onde há graça em encher páginas e mais páginas com a verdade que nos cerca e depois minimizar a monstruosidade das relações apaixonadas com um falso moralismo e uma justiça “divina”?

A consquista da Presidenta de Tourvel para massagear o ego do Visconde de Valmont se transforma magicamente em amor verdadeiro e ambos morrem por esse sentimento mais cretino do que aquele que o motivou, a luxiria. Quanto a Marquesa de Merteuil, perversa e leal a sua perfídia até o último momento, é vítima de uma doença que a deixa deformada e como se não bastasse, ainda perde toda a fortuna que lhe seria de direito. Um final piegas, chato e muito cristão.

À morte da Presidenta de Tourvel não me oponho, afinal sabemos que todas as mocinhas que creem em um amor suficientemente forte para romper com quaisquer grilões acabam por esfarelar-se, de um jeito ou de outro. À ida desesperada da pequena Cécile de Volanges para o convento me enfureceu em demasia, depois de tantas conversas com a Marquesa, tantas noites acaloradas com o Visconde, e um amor fracassado com o Cavaleiro Danceny ela optou pelo destino mais sombrio e terrível que pode esperar por uma mulher: se privar de todos os prazes carnais que o mundo pode oferecer.

Apesar do final aborrecedor, me apaixonei intensamente pela narrativa. A riqueza de detalhes e a falta deles ao mesmo tempo, dão um lugar privilegiado ao espectador, permitindo, por ocasião das cenas simultaneas, os comentários mais sórdidos e debochados. A frieza de umas personagens casada com a ingenuidade de outras torna a experiencia de leitura mortalmente perigosa.

Por fim, indico essa obra a qualquer pessoa cujo assunto “amor” ou “vingança” atraia um pouco. É absurdo como boa literatura pode custar pouco, às vezes: no site Estante Virtual encontramos exemplares em perfeito estado desse livro por R$ 1,00 ou R$ 2,00. É sem dúvida um investimento que vale a pena.

Deixo para degustação a carta que o Visconde de Valmont mandou à Presidenta de Tourvel para romper com ela seu romance tão intenso e breve, rompimento esse que a levou à loucura e à morte.



P.S.¹ Peço, pelos deuses, que não assistam “Segundas Intenções” com o intuito de achar ali qualquer ligação com o livro, porque a única coisa que do livro ali encontramos são os nomes de algumas personagens.

P.S.² Embora eu não goste de adaptações livro-filme, recomendo “Ligações Perigosas”, de 1988 dirigido por Stephen Frears, que mantem o enredo do filme sem nenhum acréscimo, que seria desnecessário, e também algumas partes do texto original.



E a dita carta:

“ Nós nos aborrecemos de tudo, meu anjo, é a lei da natureza, não é minha culpa.
Se hoje, pois, me aborreço de uma aventura que me ocupou durante quatro meses mortais, não é minha culpa.
Se, por exemplo, tive tanto amor quanto tiveste virtude, e já é dizer muito por certo, nada de espantoso em que um tenha acabado ao mesmo tempo qua a outra. Não é minha culpa.
Segue-se daí que há algum tempo te engano: mas, em verdade, tua impiedosa ternura até certo ponto me obriga a isso. Não é minha culpa.
Hoje, uma mulher que amo perdidademente exige que te sacrifique. Não é culpa minha.
Sinto muito bem que te dou uma excelente oportunidade para falar em perjúrio; mas, se a natureza só concedeu aos homens constância enquanto dava obstinação às mulheres, não é culpa minha.
Crê em mim, escolhe outro amante como eu escolhi outra amante. Este conselho é bom, muito bom; se o achares ruim, não é culpa minha.
Adeus, meu anjo, eu te possuí com prazer, deixo-te sem pesar; voltarei a ti, talvez. O mundo é assim. Não é culpa minha.”




Brindemos aos “Don Juan” que nos cercam, nos enchem de prazer e nos deixam...sem pesar.