quarta-feira, 29 de junho de 2011

O. Oculto

Recobrar. Revelar. Revés.
Revês. Velar. Outra vez.
Volver. Retraz. Teus pés. 

Querer. Querido. Quero.
Revelar. Re-velar. Velar.
Aqui.       Ali.       Acolá.

O.           Ta.          Te.
Ti.           To.          Tu.




*tentando poetizar o impoetizável.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não
posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me
dá soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso um cabo e
uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para
outros não existia aquela música não podia porque não podia popular
aquela música se não canta não é popular se não afina não tintina não
tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais
megera miséria física e doendo doendo como um prego na palma da mão um
ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto como um nervo
tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao sol
enquanto vendem por magros cruzeiros aquelas cuias onde a boa forma é
magreza fina da matéria mofina forma de fome o barro malcozido no choco
do desgôsto até que os outros vomitem os seus pratos plásticos de bordados
rebordos estilo império para a megera miséria pois isto é popular para
os patronos do povo mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo cavila
o povo é o inventalínguas na malícia da mestria no matreiro da maravilha
no visgo do improviso tenteando a travessia azeitada o eixo do sol
pois não tinha serventia metáfora pura ou quase o povo é o melhor artífice
no seu martelo galopado no crivo do impossível no vivo do inviável
o crisol do incrível do seu galope martelado e azeite e eixo do sol
mas aquele fio aquele fio aquele gumefio azucrinado dentedoendo como
um fio demente plageando seu viúvo desacorde num ruivo brasa de uivo
esfaima circuladô de fulô circuladô de fulô circuladô de fulôôô
porque eu não posso guiá veja este livro material de consumo este aodeus
aodemodarálivro que eu arrumo e desarrumo que eu uno e desuno vagagem
de vagamundo na virada do mundo que deus que demo te guie então porque eu
não posso não ouso não pouso não troço não toco não troco senão nos meus
miúdos nos meus réis nos meus anéis nos meus dez nos meus menos nos meus
nadas nas minhas penas nas antenas nas galenas nessas ninhas mais pequenas
chamadas de ninharias como veremos verbenas açúcares açucenas ou
circunstâncias somenas tudo isso eu sei não conta tudo isso desaponta não
sei mais ouça como canta louve como conta prove como dança e não peça que 
eu te guie não peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa
que eu te fie me deixe me esqueça me largue me desamargue que no fim eu
acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo
e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito
que pelo torto fiz direito e que quem faz cesto faz cento se não guio
não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento bagagem de
miramundo na miragem do segundo que pelo avesso fui destro sendo avesso
pelo sestro não guio porque não guio porque não posso guiá e não me peça
memento mas more no meu momento desmande meu mandamento e não fie desfie
e não confie desfie que pelo sim pelo não para mim prefiro o não
no senão do sim ponha o não no im de mim ponha o não o não será tua demão




Haroldo de Campos - Galáxias

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Santa Carolina


“Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá”

Certas coisas não mudam, o, nada, mudando tudo.

Tsé-tsé, oh menino. Esgotei tu. Tudo turvo. Há coisa última, não atrai. Tudo turvo. Tsé-Tsé, oh menino. Tucum, tucupi, tucuxi. Tudo turvo. Esgotei tu, Tsé-Tsé, oh menino.  Tugindo, deixei escapar segredos. Tsé-Tsé, oh menino, me leve daqui. Tudo turvo. Tu túmido, Tsé-Tsé, oh menino. Tunda de tu, alto. Tsé-Tsé. Tupã, tucum, tucupi, tucuxi. Ogum, Olorum, Iansã. Tsé-Tsé, oh menino. Meu coração túrgido, esgotei tu. Tudo turvo. Tu turrão, não cansa de turrar. Esgotei tu, Tsé-Tsé. O que será de mim agora? Eu tuteando tu. Tsé-Tsé, oh menino. Esgotei tu.


"Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai"

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O Jaguadarte

Era briluz.
As lesmolisas touvas roldavam e reviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.


"Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Fefel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassura!"

Ele arrancou sua espada vorpal e foi atrás do inimigo do Homundo.
Na árvore Tamtam ele afinal
Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,
Sorrelfiflando através da floresta,
E borbulia um riso louco!

Um dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!
Cabeça fere, corta e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.

"Pois então tu mataste o Jaguadarte?
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!"

Ele se ria jubileu.

Era briluz.
As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.


Tradução de Augusto de Campos*


sexta-feira, 3 de junho de 2011

A literatura e o direito à morte

Essa semana apresentei o texto "A literatura e o direito à morte" na aula de Estética e Literatura, fiquei muito angustiada com esse ímpeto do escritor frente à linguagem. Há uma necessidade de experienciar a morte por meio da linguagem e somente nela há também contato com a vida. Todos os trechos citados entre aspas aqui são desse texto escrito, e muito bem, por Maurice Blanchot.

"Cada cidadão tem, por assim dizer, direito à morte: a morte não é sua condenação, é a essência do seu direito; ele não é suprimido como culpado, mas necessita da morte para se afirmar cidadão, e é no desaparecimento da morte que a liberdade o faz nascer."

É direito nosso, como ser, morrer à nossa vontade, ao nosso tempo. Eu, enquanto eu, posso controlar o momento da minha morte, pela linguagem e somente pela linguagem. Saber à morte é estar acima dela. 

"Ao contrário, 'morrer' é pura insignificância, fato sem realidade concreta e que perdeu  todo o valor do drama pessoal e interior, pois não existe mais interior. É o momento em que 'eu morro', significa para mim que morro, uma banalidade que não tem importância: no mundo livre e nesses momentos em que a liberdade é aparição absoluta, morrer não tem importância e a morte não tem profundidade. Isto, o Terror e a Revolução - não a guerra - nos ensinaram."

Do que adianta morrer se é o outro que, no ato, experiencía a sua morte? Na morte não há morte, a morte é o aniquilamento de um por vir, de um depois. Em frente a tudo, morrer não é nada.

"Somente a morte me permite agarrar o que quero alcançar; nas palavras, ela é a única possibilidade de seus sentidos. Sem a morte, tudo desmoronaria no absurdo e no nada."

E quem seria eu se não pudesse morrer? Aniquilar o sofrimento e a dor? O único jeito.

"Mas a linguagem é a vida que carrega a morte e nela se mantém."

E é pela linguagem que eu me mantenho, ainda, erguida. 

"É nisso que podemos dizer que existe ser, porque existe o nada: a morte é a possibilidade do homem, é sua chance, é por ela que nos resta o futuro de um mundo realizado; a morte é a maior esperança dos homens, sua única esperança de serem homens."

A morte é único jeito de continuar vivendo.

"Mas morrer é quebrar o mundo: é perder o homem, aniquilar o ser: portanto, é também perder a morte, perder o que nela e para mim fazia dela morte. Enquanto vivo, sou um homem mortal, mas, quando morro, cessando de ser um homem, cesso também de ser mortal, não sou mais capaz de morrer, e a morte que se anuncia me causa horror, porque a vejo tal como é: não mais morte, mas a possibilidade de morrer."

A morte só me mostra a imortalidade da minha alma.

"A morte resulta no ser: esse é o dilaceramento do homem, a origem do seu destino infeliz, pois pelo homem a morte chega ao ser e pelo homem o sentido repousa sobre o nada; só compreendemos privando-nos de existir, tornando a morte possível, infectando o que compreendemos com o nada da morte, de maneira que, se saímos do ser, caímos além da possibilidade da morte, e a conclusão se torna o desaparecimento de qualquer conclusão."

Eu tenho direito de morrer e tenho o exercido. Eu morro todos os dias, pela linguagem, na linguagem, sob a linguagem.





"Certamente, minha linguagem não mata ninguém."