sexta-feira, 3 de junho de 2011

A literatura e o direito à morte

Essa semana apresentei o texto "A literatura e o direito à morte" na aula de Estética e Literatura, fiquei muito angustiada com esse ímpeto do escritor frente à linguagem. Há uma necessidade de experienciar a morte por meio da linguagem e somente nela há também contato com a vida. Todos os trechos citados entre aspas aqui são desse texto escrito, e muito bem, por Maurice Blanchot.

"Cada cidadão tem, por assim dizer, direito à morte: a morte não é sua condenação, é a essência do seu direito; ele não é suprimido como culpado, mas necessita da morte para se afirmar cidadão, e é no desaparecimento da morte que a liberdade o faz nascer."

É direito nosso, como ser, morrer à nossa vontade, ao nosso tempo. Eu, enquanto eu, posso controlar o momento da minha morte, pela linguagem e somente pela linguagem. Saber à morte é estar acima dela. 

"Ao contrário, 'morrer' é pura insignificância, fato sem realidade concreta e que perdeu  todo o valor do drama pessoal e interior, pois não existe mais interior. É o momento em que 'eu morro', significa para mim que morro, uma banalidade que não tem importância: no mundo livre e nesses momentos em que a liberdade é aparição absoluta, morrer não tem importância e a morte não tem profundidade. Isto, o Terror e a Revolução - não a guerra - nos ensinaram."

Do que adianta morrer se é o outro que, no ato, experiencía a sua morte? Na morte não há morte, a morte é o aniquilamento de um por vir, de um depois. Em frente a tudo, morrer não é nada.

"Somente a morte me permite agarrar o que quero alcançar; nas palavras, ela é a única possibilidade de seus sentidos. Sem a morte, tudo desmoronaria no absurdo e no nada."

E quem seria eu se não pudesse morrer? Aniquilar o sofrimento e a dor? O único jeito.

"Mas a linguagem é a vida que carrega a morte e nela se mantém."

E é pela linguagem que eu me mantenho, ainda, erguida. 

"É nisso que podemos dizer que existe ser, porque existe o nada: a morte é a possibilidade do homem, é sua chance, é por ela que nos resta o futuro de um mundo realizado; a morte é a maior esperança dos homens, sua única esperança de serem homens."

A morte é único jeito de continuar vivendo.

"Mas morrer é quebrar o mundo: é perder o homem, aniquilar o ser: portanto, é também perder a morte, perder o que nela e para mim fazia dela morte. Enquanto vivo, sou um homem mortal, mas, quando morro, cessando de ser um homem, cesso também de ser mortal, não sou mais capaz de morrer, e a morte que se anuncia me causa horror, porque a vejo tal como é: não mais morte, mas a possibilidade de morrer."

A morte só me mostra a imortalidade da minha alma.

"A morte resulta no ser: esse é o dilaceramento do homem, a origem do seu destino infeliz, pois pelo homem a morte chega ao ser e pelo homem o sentido repousa sobre o nada; só compreendemos privando-nos de existir, tornando a morte possível, infectando o que compreendemos com o nada da morte, de maneira que, se saímos do ser, caímos além da possibilidade da morte, e a conclusão se torna o desaparecimento de qualquer conclusão."

Eu tenho direito de morrer e tenho o exercido. Eu morro todos os dias, pela linguagem, na linguagem, sob a linguagem.





"Certamente, minha linguagem não mata ninguém."

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