segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Os Três Mal-Amados


O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto 







sábado, 22 de outubro de 2011

And the days are not full enough

And the days are not full enough

And the nights are not full enough


And life slips by like a field mouse


         Not shaking the grass.

Ezra Pound

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Eu que beijei

"Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."

(Granda Sertão: Veredas)

sábado, 17 de setembro de 2011

O Rio - João Cabral de Melo Neto


(...)

Deixando vou as terras
de minha primeira infância.
Deixando para trás
os nomes que vão mudando.
Terras que eu abandono
porque é de rio estar passando.
Vou com passo de rio,
que é de barco navegando.
Deixando para trás
as fazendas que vão ficando.
Vendo-as, enquanto vou,
parece que estão desfilando.
Vou andando lado a lado
de gente que vai retirando;
vou levando comigo
os rios que vou encontrando.

(...)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

ND

Tudo que tenho
não é meu.
Nada que tenho
tu que me deu.

Ao nada
dou tudo

Pobre de mim
à nada pertenço
tudo conheço
dessa dor sem fim.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O renascer da Puta Estrelada

A Puta, tão bela, seus olhos fechou.
A Puta, tão casta, seu corpo tombou.
Sua face, estrelada, docemente reluziu.
Seu torso, acavalado; suas pernas abriu.




(continua...)

sábado, 27 de agosto de 2011

...

a falta de você, como nunca senti antes. tantos fins, tantos deles, agora só um começo. falta de você

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"fecho encero reverbero aqui me fino aqui me zero não canto não conto
não quero anoiteço desprimavero me libro enfim neste livro neste voo
me revoo mosca e aranha mina e minério corda acorde psaltério musa
nãomaisnãomais que destempero joguei limpo joguei a sério nesta sêde
me desaltero me descomeço me encero no fim do mundo o livro fina o
fundo a fim o livro a sina não fica traço nem sequela jogo de dama ou
de amarela cabracega jogo da velha o livro acaba o mundo fina o amor
despluma e tremulina a mão se move a mesa vira verdade é o mesmo que
mentira ficção fiação tesoura e lira que a mente toda se ensafira e
madriperla e desatina cantando o pássaro por dentro por onde o canto
dele afina a sua lâmina mais língua enquanto a língua mais lamina
aqui me largo foz e voz ponto sem nó contrapelo onde cantei já não
canto onde é verão faço inverno viagem tornaviagem passand'além
reverbero não conto não canto não quero descadernei meu caderno
livro meu meu livrespelho dizei do livro que escrevo no fim do
livro primeiro e se no fim deste um um outro é já mensageiro do
novo no derradeiro que já no primo se ultima escribescravo tinteiro
monstro gaio velho contador de lériaslendas aqui acabas aqui
desabas aqui abracadabracabas ou abres sésamoteabres e setestrelas
cada uma das setechaves sigilando à tua beira à beira-ti beira-
-nada vocêvoz tutresvariantes tua gaia sabença velhorrevelho contador
de palavras de patranhas parêmias parlendas rebarbas falsário de
rebates finório de remates useiro de vezos e vezeiro de usos
tuteticomigo conosconvosco contingens este quod potest esse et
non esse tudo vai nessa foz do livro nessa voz e nesse vós do livro
que saltimboca e desemboca e pororoca nesse fim de rota de onde não
se volta porque no ir é volta porque no ir revolta a reviagem que
se faz de maragem de aragem de paragem de miragem de pluma de
aniagem de téssil tecelagem monstrogaio boquirroto emborcando o
teu solo mais gárrulo colapsas aqui neste fim-de-livro onde a fala
coalha a mão treme a nave encalha mestre garço velhorrevelho
mastigador de palavras malgastas malagaxas laxas acabas aquiacabas
tresabas sabiscôndito sabedor de nérias com tua gaia sabença teus
rébus e rebojos tuas charadas de sonesgas sonegador de fábulas
contraversor de fadas loquilouco snobishomem arrotador de vantagem
infusor de ciência abstractor de demência mas tua calma está salva
tua alma se lava nesse livro que se alva como a estrela mais d'alva
e enquanto somes ele te consome enquanto o fechas a chave ele se
multiabre enquanto o finas ele translumina essa linguamorta essa
moura torta esse umbilifio que te prega à porta pois o livro é teu
porto velho faustinfausto mabuse da linguagem persecutado por teus
credores mefistofamélicos e assim o fizeste assim o teceste assim
o deste e avrà quasi l'ombra della vera costellazione enquanto a
mente quase-íris se emparadisa neste multilivro e della doppia danza"

sábado, 20 de agosto de 2011

O fim do (meu) mundo


Tanto, do outro falei, aqui acolá. Tudo aqui ainda há, gira suga, perturba. Frágil. Morri, vezes. Sempre pelo outro, amor ao outro, compaixão ao outro, ódio ao outro, necessidade do outro. De mim, nada. Hoje, estou, só. Não calor, poetar. Morrer, mais uma vez, outras tantas. Processa, tritura dor. Passa. Passará, sobre tudo. Coração nuvem, à noite, veraneio. Sentir,  sangue congelar, corpo esfriar. Só, tom triste, aqui. Pesada massavida, não finda. Tom de ausência. Sua ausência. Minha ausência. Nossa ausência. Completa presença. 



Ainda, sem cabeça, pulsos sem fluxo, corpo sem sal, coração sem som. É preciso saber morrer, se morre muitas vezes, na vida. 

terça-feira, 16 de agosto de 2011

ssd

Você pega as palavras de um desconhecido, encosta no pé do ouvido e acredita exatamente aquilo ter vivido. 

domingo, 17 de julho de 2011

Correspondências



A natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.

Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,

Com a fluidez daquilo que jamais termina,
Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.

Charles Baudelaire

domingo, 10 de julho de 2011

Quiçá

De olhos bem fechados.
Deixando passar.
Deixando ir.
Para o inferno!
Notas
Sílabas
Hálito
Purpura
De volta.


Pés
Caretas
Nãos
Mãos
Fim.


Quiçá, você
De volta.


Quiçá, eu
Embora


Para o inferno!


.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

,é preciso continuar,

Um livro que me adoentou e esteve nos meus pensamentos por algumas semanas. O Inominável, Samuel Beckett.

É preciso dizer, é preciso dizer, é preciso dizer. Sem descanso, sem demora, sem pressa, dizer apenas. Sentir pelas palavras, sentir as próprias palavras, sem descanso até o final. 

É difícil escolher um trecho pra aqui grafar, é difícil porque não é possível dissociar uma parte do todo. Eu teria de publicar todo o livro. Essa coisa, esse sem forma, esse sem nome, esse sem fim. 


No entanto, não consigo deixar de tentar, ao menos, fazer com que sintas a mínima parte desse intenso sufocar.


"(...),eis-me longe, eis-me ausente, é a vez dele, daquele que nem fala nem escuta, que não tem nem corpo nem alma, é outra coisa que ele tem, ele deve ter alguma coisa, ele deve estar em alguma parte, ele é feito de silêncio, eis uma linda análise, ele está no silêncio, é ele que é preciso procurar, ele que é preciso ser, dele que é preciso falar, mas ele não pode falar, então poderei falar, serei ele, serei o silêncio, estarei no silêncio, estaremos reunidos, sua história que é preciso contar, mas ele não tem história, não esteve na história, não é certo, ele está na sua história dele, inimaginável, indizível, não faz mal, é preciso tentar, nas minhas velhas histórias vindas não se sabe de onde, encontrar a sua, ela deve estar lá, deve ter sido a minha, antes de ser a sua, eu a reconhecerei, terminarei por reconhecê-la, a história do silêncio que ele nunca deixou, que eu nunca deveria ter deixado, que eu talvez não reencontre nunca, que talvez reencontre, então será ele, será eu, será o lugar, o silêncio, o fim, o começo, o recomeço, como dizer, são palavras, só tenho isso,(...)"

,

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O. Oculto

Recobrar. Revelar. Revés.
Revês. Velar. Outra vez.
Volver. Retraz. Teus pés. 

Querer. Querido. Quero.
Revelar. Re-velar. Velar.
Aqui.       Ali.       Acolá.

O.           Ta.          Te.
Ti.           To.          Tu.




*tentando poetizar o impoetizável.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não
posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me
dá soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso um cabo e
uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para
outros não existia aquela música não podia porque não podia popular
aquela música se não canta não é popular se não afina não tintina não
tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais
megera miséria física e doendo doendo como um prego na palma da mão um
ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto como um nervo
tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao sol
enquanto vendem por magros cruzeiros aquelas cuias onde a boa forma é
magreza fina da matéria mofina forma de fome o barro malcozido no choco
do desgôsto até que os outros vomitem os seus pratos plásticos de bordados
rebordos estilo império para a megera miséria pois isto é popular para
os patronos do povo mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo cavila
o povo é o inventalínguas na malícia da mestria no matreiro da maravilha
no visgo do improviso tenteando a travessia azeitada o eixo do sol
pois não tinha serventia metáfora pura ou quase o povo é o melhor artífice
no seu martelo galopado no crivo do impossível no vivo do inviável
o crisol do incrível do seu galope martelado e azeite e eixo do sol
mas aquele fio aquele fio aquele gumefio azucrinado dentedoendo como
um fio demente plageando seu viúvo desacorde num ruivo brasa de uivo
esfaima circuladô de fulô circuladô de fulô circuladô de fulôôô
porque eu não posso guiá veja este livro material de consumo este aodeus
aodemodarálivro que eu arrumo e desarrumo que eu uno e desuno vagagem
de vagamundo na virada do mundo que deus que demo te guie então porque eu
não posso não ouso não pouso não troço não toco não troco senão nos meus
miúdos nos meus réis nos meus anéis nos meus dez nos meus menos nos meus
nadas nas minhas penas nas antenas nas galenas nessas ninhas mais pequenas
chamadas de ninharias como veremos verbenas açúcares açucenas ou
circunstâncias somenas tudo isso eu sei não conta tudo isso desaponta não
sei mais ouça como canta louve como conta prove como dança e não peça que 
eu te guie não peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa
que eu te fie me deixe me esqueça me largue me desamargue que no fim eu
acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo
e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito
que pelo torto fiz direito e que quem faz cesto faz cento se não guio
não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento bagagem de
miramundo na miragem do segundo que pelo avesso fui destro sendo avesso
pelo sestro não guio porque não guio porque não posso guiá e não me peça
memento mas more no meu momento desmande meu mandamento e não fie desfie
e não confie desfie que pelo sim pelo não para mim prefiro o não
no senão do sim ponha o não no im de mim ponha o não o não será tua demão




Haroldo de Campos - Galáxias

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Santa Carolina


“Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá”

Certas coisas não mudam, o, nada, mudando tudo.

Tsé-tsé, oh menino. Esgotei tu. Tudo turvo. Há coisa última, não atrai. Tudo turvo. Tsé-Tsé, oh menino. Tucum, tucupi, tucuxi. Tudo turvo. Esgotei tu, Tsé-Tsé, oh menino.  Tugindo, deixei escapar segredos. Tsé-Tsé, oh menino, me leve daqui. Tudo turvo. Tu túmido, Tsé-Tsé, oh menino. Tunda de tu, alto. Tsé-Tsé. Tupã, tucum, tucupi, tucuxi. Ogum, Olorum, Iansã. Tsé-Tsé, oh menino. Meu coração túrgido, esgotei tu. Tudo turvo. Tu turrão, não cansa de turrar. Esgotei tu, Tsé-Tsé. O que será de mim agora? Eu tuteando tu. Tsé-Tsé, oh menino. Esgotei tu.


"Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai"

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O Jaguadarte

Era briluz.
As lesmolisas touvas roldavam e reviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.


"Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Fefel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassura!"

Ele arrancou sua espada vorpal e foi atrás do inimigo do Homundo.
Na árvore Tamtam ele afinal
Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,
Sorrelfiflando através da floresta,
E borbulia um riso louco!

Um dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!
Cabeça fere, corta e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.

"Pois então tu mataste o Jaguadarte?
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!"

Ele se ria jubileu.

Era briluz.
As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.


Tradução de Augusto de Campos*


sexta-feira, 3 de junho de 2011

A literatura e o direito à morte

Essa semana apresentei o texto "A literatura e o direito à morte" na aula de Estética e Literatura, fiquei muito angustiada com esse ímpeto do escritor frente à linguagem. Há uma necessidade de experienciar a morte por meio da linguagem e somente nela há também contato com a vida. Todos os trechos citados entre aspas aqui são desse texto escrito, e muito bem, por Maurice Blanchot.

"Cada cidadão tem, por assim dizer, direito à morte: a morte não é sua condenação, é a essência do seu direito; ele não é suprimido como culpado, mas necessita da morte para se afirmar cidadão, e é no desaparecimento da morte que a liberdade o faz nascer."

É direito nosso, como ser, morrer à nossa vontade, ao nosso tempo. Eu, enquanto eu, posso controlar o momento da minha morte, pela linguagem e somente pela linguagem. Saber à morte é estar acima dela. 

"Ao contrário, 'morrer' é pura insignificância, fato sem realidade concreta e que perdeu  todo o valor do drama pessoal e interior, pois não existe mais interior. É o momento em que 'eu morro', significa para mim que morro, uma banalidade que não tem importância: no mundo livre e nesses momentos em que a liberdade é aparição absoluta, morrer não tem importância e a morte não tem profundidade. Isto, o Terror e a Revolução - não a guerra - nos ensinaram."

Do que adianta morrer se é o outro que, no ato, experiencía a sua morte? Na morte não há morte, a morte é o aniquilamento de um por vir, de um depois. Em frente a tudo, morrer não é nada.

"Somente a morte me permite agarrar o que quero alcançar; nas palavras, ela é a única possibilidade de seus sentidos. Sem a morte, tudo desmoronaria no absurdo e no nada."

E quem seria eu se não pudesse morrer? Aniquilar o sofrimento e a dor? O único jeito.

"Mas a linguagem é a vida que carrega a morte e nela se mantém."

E é pela linguagem que eu me mantenho, ainda, erguida. 

"É nisso que podemos dizer que existe ser, porque existe o nada: a morte é a possibilidade do homem, é sua chance, é por ela que nos resta o futuro de um mundo realizado; a morte é a maior esperança dos homens, sua única esperança de serem homens."

A morte é único jeito de continuar vivendo.

"Mas morrer é quebrar o mundo: é perder o homem, aniquilar o ser: portanto, é também perder a morte, perder o que nela e para mim fazia dela morte. Enquanto vivo, sou um homem mortal, mas, quando morro, cessando de ser um homem, cesso também de ser mortal, não sou mais capaz de morrer, e a morte que se anuncia me causa horror, porque a vejo tal como é: não mais morte, mas a possibilidade de morrer."

A morte só me mostra a imortalidade da minha alma.

"A morte resulta no ser: esse é o dilaceramento do homem, a origem do seu destino infeliz, pois pelo homem a morte chega ao ser e pelo homem o sentido repousa sobre o nada; só compreendemos privando-nos de existir, tornando a morte possível, infectando o que compreendemos com o nada da morte, de maneira que, se saímos do ser, caímos além da possibilidade da morte, e a conclusão se torna o desaparecimento de qualquer conclusão."

Eu tenho direito de morrer e tenho o exercido. Eu morro todos os dias, pela linguagem, na linguagem, sob a linguagem.





"Certamente, minha linguagem não mata ninguém."

domingo, 1 de maio de 2011

M O R T E
O T M E R
R M O R T
T M O R E
E R M O T
E T R M O
T R E M O
R M O R T
O T M E R
M O R T E

La Mort dans l´Âme.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A minha vida


"Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, - flagelos e delícias, - desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, - nada menos que a quimera da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão."


Brás Cubas in Memórias Póstumas de Brás Cubas

terça-feira, 5 de abril de 2011

Interminável

Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável Impossível Intocável.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Cadê a bola?


Até achei interessante o seu sorriso meia-boca e o seu andar cambaleante. Seu cabelo a crescer vertical e a tiara a cobrir os chifres. Ah, como eu achei interessante todas aquelas mentiras. E agora, com você impregnado nas minhas paredes, emparedado, defunto, zumbi. Você vagueia inevitavelmente pela minha alma, corroendo, eu, todo meu ânimo. Eu, coitada, sofrendo português, a canção do amigo. Marte que atirou a mim uma armadilha, me laçou demoniacamente. Até achei interessante: o seu jeito de me deixar!





!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Vincent - Tim Burton

video

And the raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming.
And the lamplight o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor

Shall be lifted--- nevermore!




sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Literar




Eu aqui, nessa ruminação de sentimentos. Num esforço contínuo... É tão bom literar você. Literar seu sorriso, sua voz, sua energia. Literar a possível sensação de estar em você. É tão impossível estar e não desejar, não querer intensamente. Os teus olhos, os teus lábios... Literar litros, teu caminhar. Transparecer, é tão simples esconder! Ver de longe, desejar de perto. Tocar, jamais. Jamais.


Aos lábios cardíacos que tanto desejei.




Como pode a boca dizer sim e o coração dizer não? Do que vale poder ver e não poder tocar? Arrepio. Cada centímetro se esvai, cada descoberta me atrai, todo eco se desfaz. Nostalgia. O coração freneticamente palpita, você lá; antropofagicamente devorado, transformado em totem. Espelho sem verdade, numa mansidão perigosa, escondido, disfarçado. Fantasticamente diferente, desgraçadamente igual. Última vez, o fruto de toda impessoalidade, a raiz de todo o mal. Em linhas tortas, acreditei. Em dez dias. 365 depois, símile.





domingo, 23 de janeiro de 2011

Esperando...


impaciente, são minhas últimas horas.

No Novessentosnove!



Dor cintilante

Queria saber onde é, onde começa, como desliga! Não sei o que há, não sei o que é, mas está aqui o tempo inteiro. Como pára? Não sei onde fica (mais) o Norte, me perdi e continuo caminhando. Que maneira? Absolutamente, perdi. Feriado pra recolher. Me. Sais minerais, brotar. Saudade. Falta. Amigas e amigos também. Tempo perdido. Definitivamente só. Sem planos, sem terra. Na garganta, uma bola de pêlos. E nos olhos, marejados, asas. Queria, simplicidade. Dissociativo. Esquecer, por todas. Fraca, a mente. Socorro.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

...eu quero tanto...

nunca desejei tanto...
...tanto menos ser assim
não desejo cessar-viver, desejo apenas cessar-sofrer.

Deus,
arranca de mim esse fôlego de vida.






sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

"Despedir dá febre."


“No me despedir, tive precisão de dizer a ele, baixinho: –“Por teu pai vou, amigo, mano-oh-mano. Vingar Joca Ramiro...” A fraqueza minha, adulatória. Mas ele respondeu: – “Viagem boa, Riobaldo. E boa-sorte...” Despedir dá febre.”

“Como no perdido mal ouvi partes do vozeio de todos, eu em malmolência. – Tomaram as roupas da mulher nua? Era a Mulher, que falava. Ah, e a Mulher rogava: – Que trouxessem o corpo daquele rapaz moço, vistoso, o dos olhos muito verdes... Eu desguisei. Eu deixei minhas lágrimas virem, e ordenando: – “Traz Diadorim!” – conforme era. – “Gente, vamos trazer. Esse é o Reinaldo...” – o que o Alaripe disse. E eu parava ali, permeio o menino Guirigó e o cego Borromeu. – Ai, Jesus! – foi o que eu ouvi, dessas vozes deles.

Aquela Mulher não era má, de todo. Pelas lágrimas fortes que esquentavam meu rosto e salgavam minha boca, mas que já frias já rolavam. Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus-buritizais levados de verdes... Buriti, do ouro da flor... E subiram as escadas com ele, em cima de mesa foi posto. Diadorim, Diadorim – será que amereci só por metade? Com meus molhados olhos não olhei bem – como que garças voavam... E que fossem campear velas ou tocha de cera, e acender altas fogueiras de boa lenha, em volta do escuro do arraial...

Sufoquei, numa estrangulação de dó. Constante o que a Mulher disse: carecia de se lavar e vestir o corpo. Piedade, como que ela mesma, embebendo toalha, limpou as faces de Diadorim, casca de tão grosso sangue, repisado. E a beleza dele permanecia, só permanecia, mais impossivelmente. Mesmo como jazendo assim, nesse pó de palidez, feito a coisa e máscara, sem gota nenhuma. Os olhos dele ficados para a gente ver. A cara economizada, a boca secada. Os cabelos com marca de duráveis... Não escrevo, não falo! – para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo! Diadorim...

Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair. Eu fiquei. E a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse...

Diadorim – nu de tudo. E ela disse:

– “A Deus dada. Pobrezinha...”

E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu – não contei ao senhor – e mercê peço: – mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube... Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, de coronha...

Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucuia, como eu solucei meu desespero.

O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.

Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

– “Meu amor!...”

Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.

A Mulher lavou o corpo, que revestiu com a melhor peça de roupa que ela tirou da trouxa dela mesma. No peito, entre as mãos postas, ainda depositou o cordão com o escapulário que tinha sido meu, e um rosário, de coquinhos de ouricuri e contas de lágrimas-de-nossa-senhora. Só faltou – ah! – a pedra-deametista, tanto trazida... O Quipes veio, com as velas, que acendemos em quadral. Essas coisas se passavam perto de mim. Como tinham ido abrir a cova, cristamente. Pelo repugnar e revoltar, primeiro eu quis: – “Enterrem separado dos outros, num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba...” Tal que disse, doidava. Recaí no marcar do sofrer. Em real me vi, que com a Mulher junto abraçado, nós dois chorávamos extenso. E todos meus jagunços decididos choravam. Daí, fomos, e em sepultura deixamos, no cemitério do Paredão enterrada, em campo do sertão.

Ela tinha amor em mim.

E aquela era a hora do mais tarde. O céu vem abaixando. Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi.

Aqui a estória se acabou.

Aqui, a estória acabada.

Aqui a estória acaba.”

“Daí, mais para adiante, dei para tremer com uma febre. Terçã. Mas o sentido do tempo o senhor entende, resenha duma viagem. Cantar que o senhor fosse. De ai, de mim. Namorei uma palmeira, na quadra do entardecer...

Na morna, baqueei, não podendo mais. Me levaram, por primeiro, de revexo. Depois me botaram para dentro duma casa muito pobre. Desembestei doente. Por último, como perdi meu conhecimento, estavam me deitando num catre.

Que foi febre-tifo, se diz, mas trelada com sezão, mas sezão forte especial – nas altíssimas! Que a febre que eu tinha era tamanha tanta, como nunca se viu – o Alaripe depois me disse ; que no decorrer dos acessos eu tresvariava.”

Grande Sertão: Veredas - João guimarães Rosa (1956)


E eu achei que isso não existia...