quinta-feira, 22 de abril de 2010

nonsense

Polissemia: doença congênita que causa duplo sentido às palavras puras.
E por que não?
As Galáxias, um Não, algumAs Flores do Mal, certAs Coisas. Tudo, absolutamente tudo, sofre com essa terrível doença que assola o mundo literário.
Sintomas mais frequentes: excesso de imagens aéreas, confusão enciclopédica, transtorno significativo, alteração das rotas.

Aviso aos andarilhos verbalistas: Letras a solta!
Assaltam os despreparados e escondem tesouros, roubam sentidos e seqüestram pensamentos, embaralham caminhos e seduzem segredos, matam valores e distorcem histórias.


Poetar
Poeteiro
Poetista
Poetador
Poetarista
Poetainstrumentalista
Poetamador
Poetarecista
Poetilusionista
Poemar
Poematizar
Poemaresia
Poedar


O poeta pode por no porto perto da pedra sua poesia

O verde vivo veda a vida.


Essa aqui é minha morada, meu forte, minha força, minha máscara, minha confusão. Eu faço, desfaço e refaço, construo e desconstruo como quero, crio e desmonto, é o meu espaço, é a minha vida, é meu dom. Nasci pela palavra e com a palavra morrerei. Elas tocam a mim e eu a elas e nos tornamos uma única unidade. As letras chamaram a mim como quem grita por socorro, ninguém pode me arrancar isso.
Algumas veias explodem de um desesperar seco e gélido receando perder essa minha parte.

O tempo tenta ter testa terna!!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

alicerce de papel


Gosto por escrever sobre mim? talvez. Necessidade de escrever sobre mim? mais provável.

Outrora li um texto no mínimo interessante sobre a origem dos mitos. Como a principal função da literatura é a eterna SEDUCERE, não consegui prender-me aos mitos sagrados, mas caminhando pé ante pé pela história, minha estória, descobri que meu alicerce é de papel.
Mircea Eliade disse “o mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada através de perspectivas múltiplas e complementares”.
Não contente em fazer tal afirmação, por vezes absurda aos céticos de plantão, ele acrescentou “o mito, portanto, é um ingrediente vital da civilização humana”
Acreditar em um mito, ingenuinamente concluindo, é construir sobre si um castelo de papel. Aos olhos, é belíssimo, mas à pele é inerte. Acreditar em um mito é garantir sua sobrevivência metafísica, é pseudoproteger-se, é cair num eterno estado entorpecido.

in illo tempore

Arquitetei para mim uma imensidão de idéias e imagens sobre o universo, sobre a origem do universo, meu universo. Ritualizei todos os dias e mantive viva a presença do meu herói. Confiei nos princípios da minha crença e me mantive içada, mesmo sentindo-me, por vezes, mortiça. Mas hoje descobri que meu alicerce é de papel, que absolutamente tudo que acredito é falso. Descobri que minha visão casta, foi castrada.

alteridade
altear
alteração
altercação
alterno


Despir-me de toda percepção, pré-visão, concepção, intuição, opinião, juízo, imagem, conceito, idéia, padrão, fantasia, protótipo, exemplo, ilusão, alucinação, alegoria, molde, utopia, engano, símbolo, insígnia. À morte daquilo que eu sou!


odeio essa Terra.





TORRE DE NÉVOA


Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas, e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo dia.


Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: "Que fantasia,


Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!..."


Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu!...

[Florbela Espanca]






RELIGIÃO -----------------------------RELIGARE




e eu quero me desligar.

domingo, 4 de abril de 2010

ego eu Я ich io je yo i





.minha física e metafísica
.metamorfoseiam-se
.a cada passo das Hôras





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durante 175.200 horas, 24 minutos e 12 segundos esperei que escrevessem um texto sobre mim, ou uma música para mim ou mesmo me mandassem flores. mas nunca recebi uma carta inesperada, muito menos um ínfimo botãozinho de rosa murcho. então, cansada de só esperar, escrevo umas Letras sobre mim.

se eu quisesse me definir, diria, sem qualquer medo de errar, que sou eu a visagem personificada daquilo que chamam ente em-si. sou toda hiatos justapostos não estáticos. como que um corpo composto por bolhas que cada novo preenchimento é responsável pelo estouro daquilo que já existia.

minha essência é feita e desfeita e nesse jogo de reciclar às vezes retrocedo. entre sujeito e individuo, metáfora e metonímia, me(u) parto e re – parto, simulacro quimérico.


SOU um não-ser cujo NADA é meu principal predicado.




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- deixo esse texto para todos aqueles entes para-si que, infelizmente, acreditam que mudar é permitir-se influenciar. e faço minhas as perfeitas palavra de Dante:
........................................quem és tu que queres julgar
........................................com vista que só alcança um palmo,
........................................coisas que estão a mil milhas?





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.............Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
.............Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
.............E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

......................................................................Fernando Pessoa