domingo, 28 de fevereiro de 2010

Ψέμα

Por que as pessoas “esquecem” de contar a parte mais importante da história?

..........................................................Se tudo o que há é mentira
......................................................... É mentira tudo o que há.
..........................................................De nada nada se tira,
.........................................................A nada nada se dá.
.........................................................................(Fernando Pessoa)

.......................................Embora mintas bem, não te acredito;
.......................................Perpassa nos teus olhos desleais
.......................................O gelo do teu peito de granito...
........................................................................(Florbela Espanca)

“A mentira exige invenção, dissimulação e memória”
Friedrich Nietzsche

Às vezes é necessário desafogar o coração.

Sabe quando você olha um alguém e o mundo pára, o céu empola de estrelas e você consegue ouvir o som do universo girando? Tudo o que você consegue desejar é que aquele momento se eternize, mas aí já é tarde demais, o mundo já está correndo, as estrelas sumiram e o único som que você consegue ouvir é aquele funk – amassa a latinha - meio ao longe.

Talvez possa ser uma curiosidade interessante, para alguns, saber que a palavra PAIXÃO tem sua origem no grego PATHOS, que posteriormente originou também a palavra PATOLÓGICO. Não há como negar, toda paixão é um excesso, de fato, uma doença. Catástrofe catástrofe catástrofe!

Mas sabe o que é pior nessa loucura toda? A ausência da verdade. Todo mundo que me conhece um pouquinho mais, sabe que meu livro favorito, praticamente minha bíblia, é A Náusea, por isso o nome do blog. Esse livro é uma bíblia porque, incrivelmente, eu acho tudo o que eu preciso lá, e dessa vez não foi diferente. O protagonista do romance, Antoine Roquentin, diz sabiamente “seria preciso, antes de mais nada, que os começos fossem começos verdadeiros.”. Mas não existe verdade em começos de paixões, por isso a maioria termina sem mesmo começar. Por que? Simples. Você se apaixona sempre por um espectro, algo que existe somente na sua mente, porque a realidade não condiz, mesmo, com as suas “lembranças”. Resumidamente você se apaixona sempre por mentiras, por isso que a personagem Garcin em Entre quatro paredes diz “eu não vou te amar: eu te conheço demais pra isso.”

Soaria estranho se eu afirmasse que a base de toda relação social é a mentira? As mentiras são mais charmosas, mais instigantes, elas têm o poder de mexer com os sentidos, os pensamentos, e, infelizmente ou não, com os sentimentos. Se suprimissem todas as mentiras do mundo, as profecias Maias cairiam por terra porque muito antes de 2012 (leia, muito antes do século XXI) não mais existiria mundo. As mentiras são sim necessárias para manter a ordem social, então por que tentam ensinar que só devemos dizer a verdade se até isso é mentira?

Mas a grande sacada aqui é, se nos apaixonamos perdidamente por mentiras porque sempre dizemos aquela frase clichê “por que ninguém me contou a verdade?”. Ora bolas, você estava apaixonado por mentiras agora quer requerer a verdade? Com que direito? Não há dúvida, pelo menos para mim, que estar apaixonado é enganar-se, mentir pra si mesmo e permitir que mintam pra você. Sapos nunca viram príncipes quando os beijamos, mas olham pra gente com aqueles grandes olhos, coaxam estranhamente e se vão. É isso! Sem 2% para mais ou para menos.

Nesse período de transição entre sair do emaranhado de mentiras e entrar no poço sombrio da verdade, alguém sempre sai machucado, possivelmente aquele que tem o coração menos traiçoeiro.


Você fica como tapete atrás da porta se perguntando como pôde ter sido tão inocente em acreditar no impossível, você fica lembrando de cada palpitação frenética que o seu coração dava, em vão, e um conjuntinho de palavras não sai da sua cabeça – 'tem uma coisa que eu “esqueci” de contar' –. Aí você corre para se reinventar, se reciclar de fato, enquanto muralhas permanecem imóveis, intocáveis, intactas.

E NO FINAL DO DIA VOCÊ SÓ TEM UM BALDE DE MENTIRAS JUNTO AOS PÉS.





................................................................................................................



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Não há no mundo algo melhor do que AMIZADE

"Não é necessário estar ao lado de alguém o tempo inteiro para que ela faça parte de sua vida e seja importante para você. Amor é algo que vem de dentro" (Iariane Jacobino)

extraído de seu livro 'memórias do meu msn'


Amo muito minha amiga de infância, companheira de sérias, rsrs, desventuras!Viva os 8 anos de amizade!



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Quem nunca sofreu um surto mnemônico involuntário?




"Quais as canções que cantavam as Sereias ou que nome Aquiles adotou quando se escondeu entre as mulheres são questões que, embora intrigantes, não se acham além de toda a conjectura." Sir Thomas Browne




As coisas mais especiais da vida são, indubitavelmente, os detalhes! Ahh, os detalhes! São os detalhes que tornam a existência, vida. As coisas grandes são notadas com facilidade e por qualquer um, mas as coisas pequeninas, bom, essas são percebidas por quem tem uma sensibilidade, de certa forma, exacerbada.
Perceber que uma gargalhada na verdade soa como uma melodia; que um simples movimento parece toda uma coreografia, por muitas vezes, ensaiada; perceber que uma camisa listrada mais parece um arco-íris monocromático; perceber que cada frase parece um poema metrificado; perceber que uma única palavra transformou toda uma vida.
Ahh, os detalhes! Lembramos com mais vivacidade deles do que das coisas “grandiosas”. Cada surto mnemônico que temos tem o poder de ressuscitar um instante demasiado perfeito das nossas vidas.
Quem é capaz de perceber os detalhes carinhosamente cedidos pela natureza tem o privilégio de viver em um mundo austero e para poucos.

Perceber o barulho feito por folhas secas quando as pisamos perceber a mudança de temperatura na palma da mão quando nos aproximamos de quem nos causa palpitações perceber quais cantos da boca são cuidadosamente tocados em um beijo apaixonado perceber quantos segundos de olhares indecentes são necessários para nos fazer enrubescer perceber a posição que o corpo tomou forma antes de abrir os olhos ao acordar perceber as inspirações e as expirações em um tocar de gaita perceber quantos floquinhos de açúcar sobraram no meio dos dentes depois do algodão doce perceber qual parte do seu corpo foi docente tocado pelo vento em um fim de tarde perceber a velocidade do piscar dos olhos quando sentimos medo perceber o modo como nos protegemos no abraço de quem amamos perceber os desenhos que o pôr do sol traceja no céu no crepúsculo da tarde perceber quantos centímetros te separam de quem te faz estremecer perceber quais notas musicais arrepiam sua espinha perceber que noite do ano tem o clima mais agradável perceber que hora do dia o sol fica exatamente sobre sua cabeça perceber quanto tempo o sangue demora pra voltar pra cabeça depois de um susto perceber que cheiro tem o lençol da cama a noite perceber que cada instante é infinito

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A Eternidade

De novo me invade.
Quem? - A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.

...

Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

...

Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.
...

De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem duzer: enfim.

...

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e Paciência,
Suplício seguro

...

De novo me invade.
Quem? - A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.
...................................................... Maio 1872, Arthur Rimbaud

Silêncio

O Silêncio que anestesia
a minh'alma ressequida,
de mortal sinestesia
enche minha vida.
...
O Silêncio que amordaça
o meu pranto interior,
aquilo que me ameaça
versa com rigor.
...
O Silêncio que protege
acena para a morte.
É o mesmo que impede
o lançar da minha sorte!
...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

ALETHEA - Entre quatro paredes



“O amor é bom, não é Garcin? É morno e profundo como o sono. Mas eu não te deixarei dormir.”




É trivial abrir uma obra literária e se deparar com uma enxurrada de contestações sobre os valores e as crenças vigentes na sociedade.

A linguagem literária desconstrói e metaforiza a “nossa verdade” e nos lança em um circulo de desconforto, onde procuramos, a todo momento, acionar nosso mecanismo de racionalização. Riffaterre em “A explicação dos fatos literários” traça exatamente como funciona o mecanismo intrínseco de racionalização da obra, basicamente, ele diz que o leitor tenta trazer para sua realidade aquilo que o texto insiste em transgredir e agredir.

De modo geral é isso que acontece com o fenômeno literário e não seria diferente nesta obra de Jean-Paul Sartre. Mesmo sabendo que sua filosofia existencialista está impregnada em todas as suas criações (ensaios, tratados filosóficos, romances, dramas etc) não é disso que este artigo irá tratar. Dessa vez, passarei longe de todo existencialismo humanista e tratarei de uma única questão: ALETHEA.

Na Idade Média, a tão temida Igreja Católica pintava ao longo das cidades imagens aterrorizantes do inferno. Demônios, fogo, calor, escuridão, grelhas, correntes, carrascos, enxofre, sofrimento, solidão etc, todos esses elementos são sinônimos dos castigos infernais. Mas essa imagem, construída e mantida por séculos é, em uma página, desmascarada, ridicularizada e desconstruída dentro da ação teatral.

Entre quatro paredes é um drama escrito no final da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente em 1944, que trata de uma anamorfose do inferno tal qual conhecemos. O inferno é continuamente claro, muito quente de fato, mas ausente de todas as figuras macabras ao qual estamos acostumados. Mais simplesmente, e como o próprio drama diz, é um salão estilo Segundo Império, mobiliado com objetos da época que recebe linearmente três ausentes (designação para mortos dada por uma das personagens: Estelle). À medida que eles se conhecem as relações vão se ‘acalorando’ e cada um passa a ser o carrasco do outro, tudo por conhecerem a verdade que os levaram ali.

* Michael Riffaterre diz que “A experiência literária é um descolamento dos sentidos/expressões habituais.”


Em O mito da caverna, Platão usa o Sol, a claridade, para metaforizar a verdade, o conhecimento, ele mostra isso como algo desejoso, algo, de fato, bom. No entanto Sartre transforma essa claridade, literalmente, em um inferno. Ele destrói com um mesmo movimento dois valores sociais que estão impregnados na cultura mundial desde o começo dos tempos:

1) Não é necessário que exista um inferno, fisicamente constituído, para que haja sofrimento eterno. O inferno então seria apenas uma metáfora para o próximo paradigma quebrado por ele.

2) A verdade sempre foi cultuada pelas civilizações, tida sempre como virtude e caminho para a felicidade. Mas nesta obra, a verdade é a personificação da tortura e sofrimento. Acaba então por ilustrar o caráter hipócrita dos sujeitos, que suplicam por verdade, mas não querem trazê-la à tona.


Fantástico, como só ele consegue ser, Jean-Paul Sartre trás de forma sutil e sufocante, concomitantemente, aquilo que nos incomoda, a linguagem permite que o nosso Doppelgänger borbulhe em cada página.