segunda-feira, 21 de junho de 2010

MonoLogo

Lendo, novamente, A Náusea, decidi compartilhar um monólogo.


“Compro um jornal no caminho. Sensacional! O corpo da pequena Lucienne foi encontrado! Cheiro de tinta, o papel se amarrota entre meus dedos. O ignóbil indivíduo fugiu. A criança foi violada. Encontraram seu corpo com os dedos crispados na lama. Faço uma bola com o jornal; meus dedos estão crispados no jornal; cheiro de tinta; Deus meu, como as coisas hoje existem com intensidade! A pequena Lucienne foi violada. Estrangulada. Seu corpo ainda existe, sua carne pisada. Ela já não existe. Suas mãos. Ela já não existe. As casas. Caminho entre as casas, estou entre as casas, muito teso sobre o calçamento; o calçamento sob meus pés existe, as casas tornam a se fechar sobre mim, como a água se fecha sobre mim sobre o papel em forma de montanha de cisne, eu sou. Sou, existo, penso logo sou; sou porque penso; por que penso? Já não quero pensar, sou porque penso que não quero ser, penso que eu...porque...bah! Fujo, o ignóbil indivíduo fugiu, seu corpo violado. Ela sentiu aquela outra carne que penetrava na sua. Eu...eis que eu... Violada. Um suave desejo sangrento de estupro se apodera de mim por trás, muito suave, por trás das orelhas, as orelhas correm atrás de mim, os cabelos ruivos, eles são ruivos em minha cabeça, uma relva molhada, uma relva ruiva, isso ainda sou eu? E esse jornal ainda sou eu? Segurar o jornal, existência contra existência, as coisas existem encostadas umas nas outras, solto o jornal. A casa brota, ela existe; à minha frente um muro, passo rente a ele, ao longo do longo muro eu existo, em frente ao muro, um passo, o muro existe à minha frente, um, dois, atrás de mim, um dedo que coça sobre minha calça, coça, coça, coça, e puxa o dedo da menina maculada de lama, a lama em meu dedo, que saía do riacho lamacento e torna a cair suavemente, suavemente, amolecia, coçava com menos força que os dedos da menina que foi estrangulada, ignóbil indivíduo, raspavam a lama a terra com menos força, o dedo desliza suavemente, cai de cabeça e acaricia, rolo quente junto a minha coxa; a existência é mole e rola e se sacode, eu me sacudo entre as casas, eu sou, existo, penso, logo me sacudo, sou, a existência é uma queda, não cairá, o dedo raspa a lucarna, a existência é uma imperfeição.”

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