quarta-feira, 21 de abril de 2010

alicerce de papel


Gosto por escrever sobre mim? talvez. Necessidade de escrever sobre mim? mais provável.

Outrora li um texto no mínimo interessante sobre a origem dos mitos. Como a principal função da literatura é a eterna SEDUCERE, não consegui prender-me aos mitos sagrados, mas caminhando pé ante pé pela história, minha estória, descobri que meu alicerce é de papel.
Mircea Eliade disse “o mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada através de perspectivas múltiplas e complementares”.
Não contente em fazer tal afirmação, por vezes absurda aos céticos de plantão, ele acrescentou “o mito, portanto, é um ingrediente vital da civilização humana”
Acreditar em um mito, ingenuinamente concluindo, é construir sobre si um castelo de papel. Aos olhos, é belíssimo, mas à pele é inerte. Acreditar em um mito é garantir sua sobrevivência metafísica, é pseudoproteger-se, é cair num eterno estado entorpecido.

in illo tempore

Arquitetei para mim uma imensidão de idéias e imagens sobre o universo, sobre a origem do universo, meu universo. Ritualizei todos os dias e mantive viva a presença do meu herói. Confiei nos princípios da minha crença e me mantive içada, mesmo sentindo-me, por vezes, mortiça. Mas hoje descobri que meu alicerce é de papel, que absolutamente tudo que acredito é falso. Descobri que minha visão casta, foi castrada.

alteridade
altear
alteração
altercação
alterno


Despir-me de toda percepção, pré-visão, concepção, intuição, opinião, juízo, imagem, conceito, idéia, padrão, fantasia, protótipo, exemplo, ilusão, alucinação, alegoria, molde, utopia, engano, símbolo, insígnia. À morte daquilo que eu sou!


odeio essa Terra.





TORRE DE NÉVOA


Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas, e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo dia.


Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: "Que fantasia,


Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!..."


Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu!...

[Florbela Espanca]






RELIGIÃO -----------------------------RELIGARE




e eu quero me desligar.

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