terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

ALETHEA - Entre quatro paredes



“O amor é bom, não é Garcin? É morno e profundo como o sono. Mas eu não te deixarei dormir.”




É trivial abrir uma obra literária e se deparar com uma enxurrada de contestações sobre os valores e as crenças vigentes na sociedade.

A linguagem literária desconstrói e metaforiza a “nossa verdade” e nos lança em um circulo de desconforto, onde procuramos, a todo momento, acionar nosso mecanismo de racionalização. Riffaterre em “A explicação dos fatos literários” traça exatamente como funciona o mecanismo intrínseco de racionalização da obra, basicamente, ele diz que o leitor tenta trazer para sua realidade aquilo que o texto insiste em transgredir e agredir.

De modo geral é isso que acontece com o fenômeno literário e não seria diferente nesta obra de Jean-Paul Sartre. Mesmo sabendo que sua filosofia existencialista está impregnada em todas as suas criações (ensaios, tratados filosóficos, romances, dramas etc) não é disso que este artigo irá tratar. Dessa vez, passarei longe de todo existencialismo humanista e tratarei de uma única questão: ALETHEA.

Na Idade Média, a tão temida Igreja Católica pintava ao longo das cidades imagens aterrorizantes do inferno. Demônios, fogo, calor, escuridão, grelhas, correntes, carrascos, enxofre, sofrimento, solidão etc, todos esses elementos são sinônimos dos castigos infernais. Mas essa imagem, construída e mantida por séculos é, em uma página, desmascarada, ridicularizada e desconstruída dentro da ação teatral.

Entre quatro paredes é um drama escrito no final da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente em 1944, que trata de uma anamorfose do inferno tal qual conhecemos. O inferno é continuamente claro, muito quente de fato, mas ausente de todas as figuras macabras ao qual estamos acostumados. Mais simplesmente, e como o próprio drama diz, é um salão estilo Segundo Império, mobiliado com objetos da época que recebe linearmente três ausentes (designação para mortos dada por uma das personagens: Estelle). À medida que eles se conhecem as relações vão se ‘acalorando’ e cada um passa a ser o carrasco do outro, tudo por conhecerem a verdade que os levaram ali.

* Michael Riffaterre diz que “A experiência literária é um descolamento dos sentidos/expressões habituais.”


Em O mito da caverna, Platão usa o Sol, a claridade, para metaforizar a verdade, o conhecimento, ele mostra isso como algo desejoso, algo, de fato, bom. No entanto Sartre transforma essa claridade, literalmente, em um inferno. Ele destrói com um mesmo movimento dois valores sociais que estão impregnados na cultura mundial desde o começo dos tempos:

1) Não é necessário que exista um inferno, fisicamente constituído, para que haja sofrimento eterno. O inferno então seria apenas uma metáfora para o próximo paradigma quebrado por ele.

2) A verdade sempre foi cultuada pelas civilizações, tida sempre como virtude e caminho para a felicidade. Mas nesta obra, a verdade é a personificação da tortura e sofrimento. Acaba então por ilustrar o caráter hipócrita dos sujeitos, que suplicam por verdade, mas não querem trazê-la à tona.


Fantástico, como só ele consegue ser, Jean-Paul Sartre trás de forma sutil e sufocante, concomitantemente, aquilo que nos incomoda, a linguagem permite que o nosso Doppelgänger borbulhe em cada página.

5 comentários:

  1. Claro que é um livro muito bom, foi eu que escolhi. Está escrevendo cada dia melhor. Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Otimo amiga! Sabe que não é muito minha linha de estudo, mas gosto muito da sua escrita convicta!Parabéns

    ResponderExcluir
  3. Eu lih a versao em frances ... nao entendi nada !!! :-o ... nao sei frances mnuito bem <: -)

    ResponderExcluir
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  5. Li "Entre Quatro paredes" há uns 8 anos atrás, e é um dos melhores textos que já li, e considero a melhor ficção de Sartre... nunca a vi encenada, e espero ver; bom, saber q há pessoas por perto lendo textos como esse, percebendo "que o inferno são outros", mas o paraíso tb, ao menos às vezes... Ramiere

    ResponderExcluir