domingo, 12 de dezembro de 2010

O Anjo Caído - Almeida Garrett.

Era um anjo de Deus
Que se perdera dos céus
E terra a terra voava.
A seta que lhe acertava
Partira de arco traidor,
Porque as penas que levava
Não eram penas de amor.

O anjo caiu ferido
E se viu aos pés rendido
Do tirano caçador.
De asa morta e sem esplendor
O triste, peregrinando
Por estes vales de dor,
Andou gemendo e chorando.

Vi-o eu, o anjo dos céus,
O abandonado de Deus,
Vi-o, nessa tropelia
Que o mundo chama alegria,
Vi-o a taça do prazer
Pôr ao lábio que tremia
E só lágrimas beber.

Ninguém mais na terra o via,
Era eu só que o conhecia
Eu que já não posso amar!
Quem no havia de salvar?
Eu, que numa sepultura
Me fora vivo enterrar?
Loucura! Ai, cega loucura!

Mas entre os anjos dos céus
Cantava um anjo ao seu Deus;
E remi-lo e resgatá-lo,
Daquela infâmia salvá-lo
Só força de amor podia.
Quem desse amor há-de amá-lo,
Se ninguém o conhecia?

Eu só, – e eu morto, eu descrido,
Eu tive o arrojo atrevido
De amar um anjo sem luz.
Cravei-a eu nessa cruz
Minha alma que renascia,
Que toda em sua alma pus,
E o meu ser se dividia,

Porque ela outra alma não tinha,
Outra alma senão a minha...
Tarde, ai! tarde o conheci,
Porque eu o meu ser perdi,
E ele à vida não volveu...
Mas da morte que eu morri
Também o infeliz morreu.

Não sei qual título - não sei qual autor. Mas é minha pintura favorita.

A queda do anjo (1947) - Marc Chagall

Puberdade (1895) - Eduard Munch

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Anniversarius




Fim de ano...

Comemorando muitos aniversários, engraçada coincidência.

Ontem um, hoje outro. Amanhã? Tantos mais...



Minha mente é um espiral de recordações!



Um ano de Náusea Literária! Um ano de muitos conflitos e segredos secretos.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O que é Nirvana?


Walpola Rahula em seu texto “As Quatro Sublimes Verdades” é bem enfático quando diz que o Nirvana não é uma decorrência de determinadas atitudes, que não existem métodos que levem necessariamente à realização do Nirvana, e que, por esta razão, a extinção da ‘sede’ não é natural, ou seja, não é conseqüência de determinados comportamentos. Embora exista um caminho que possa conduzir à realização do Nirvana, o trilhar deste caminho não é a causa da sua realização. O Nirvana é realização, não resultado de um método.

Sendo assim, pensar que o Nirvana seja uma realização natural é incorreto porque implicaria aceitar o Nirvana como sendo facilmente acessível desde que sejam usados métodos para alcançá-lo. A grosso modo, não existe uma receita que produza Nirvana.

sábado, 20 de novembro de 2010

borda/linha/margem/divisa/fronteira/limite


Eu odeio sentir medo. Medo vertiginoso e aniquilador. Fico trêmula e assustada, a boca seca e o coração palpitante; na cabeça a ânsia pelo que vem depois. Olhando bem, esse niilismo custou os olhos da cara! E agora, além de cega, estou perdida. Depois de tanto pensar, descubro enfim que tudo está, relativamente, bem. Tudo foi apenas um susto. Que susto!


terça-feira, 9 de novembro de 2010

O que é o amor?

"Primeiro nasceu Caos" - Hesíodo - Teogonia




Por incrível que pareça, o mundo acadêmico nos ensina coisas interessantíssimas. Baseada nas aulas de Cultura Clássica, eu já escrevi vários post para o Náusea Literária e desta vez não será diferente.

Tentarei explicar racionalmente o que é irracional ou, em outras palavras, tentarei explicar materialmente o que é imaterial, entenda o leitor como quiser.

Comecemos...

A antropologia arcaica tratava a necessidade de completude do homem com base na idéia teogônica da androgeneidade. Segundo a mitologia grega existia um ser perfeito e completo vivendo em felicidade absoluta, este ser carregava em si tanto o masculino quanto o feminino. Os deuses gregos por terem tantas características humanas se incomodaram com existência dessa essência tão perfeita e decidiram, como Platão explica em O Banquete, separar este ser em duas metades. Assim nascem dois seres distintos representados sob forma de homem e de mulher e cada metade foi posta em um canto do mundo.

Isso resulta em uma trajetória da essência absoluta para uma essência nostálgica, pois o estado primordial do ser era a felicidade e completude, agora é a nostalgia e incompletude. Este estado primordial do ser é o que o impele a se unir a uma outra metade na tentativa de reconstruir sua unidade. Esse comportamento é instintivo, espero que me entenda.

Então, é por meio do que chamamos amor que os homens buscam sua totalidade perdida, tentam eliminar de si a carência, a saudade, a vontade do absoluto. Mas como a finitude, a imperfeição são inerentes ao homem – sua miséria e destino – o amor acaba por resultar em uma grande ilusão:

PROMESSA E DESENCANTO.




“1. No princípio, criou Deus os céus e a terra

2. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo (...).”

Gênesis 1. 1-2


“Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa

amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita”

Carlos Drummond de Andrade




Fomos originados da desordem, vazio e trevas; essa é a nossa essência primordial.






domingo, 7 de novembro de 2010

Eros

s u l p a l u s p a p a l s u p a s u l p a s l u l u p a s o
p u s l a p a l u s s u p a l s a p u l p u s a l s l a p u o
l a p s u s l u p a p l a s u p l u s a p s a l u p s u l a o
s p a l u s p u l a s a l p u p u l s a p u l s a p u l s a o

s u l p a
l u s p a
p a l s u
p a s u l
p a s l u
l u p a s
p u s l a
p a l u s
s u p a l
s a p u l
p u s a l
s l a p u
l a p s u
s l u p a
p l a s u
p l u s a
p s a l u
p s u l a
s p a l u
s p u l a
s a l p u


No final das contas, as coisas são exatamente iguais, só muda a posição.





domingo, 12 de setembro de 2010

Simples


Pelo editor de texto do blog eu não consegui escrever direto aqui, então fiz essa colagem. Meu último poema que diz tudo dizendo nada.

Come back!

Acho que fiquei um tempinho longe daqui sem postar as minhas coisas malucas e acho também que isso aqui virou um deserto gráfico, como tantos outros na internet. Talvez isso seja bom, agora tenho mais liberdade criativa. Escrever sem pensar no que poderão pensar sobre aquilo que eu costumo pensar.
Meus pensamentos estão de volta! Definitivamente.

Muita coisa aconteceu desde a última postagem, falo em assuntos literários. Certamente não poderei colocá-los todos aqui, de uma vez.

O último livro que li foi Água Viva da Clarice Lispector e algumas partes me atacaram.
Aqui, algumas delas.







"Estou dando a você a liberdade. Antes rompo o saco de água. Depois corto o cordão umbilical. E você está vivo por conta própria.
E quando nasço fico livre. Esta é a base de minha tragédia.
Não. Não é fácil. Mas "é". Comi minha própria placenta para não precisar comer durante quatro dias. Para ter leite para te dar. O leite é um "isto". E ninguém é eu. ninguém é você. Esta é a solidão.
Estou esperando a próxima frase. É questão de segundos.

Estou de olhos fechados. Sou pura inconsciência. Já cortaram o cordão umbilical: estou solta no universo. Não penso mas sinto o it. Com olhos fechados procuro cegamente o peito:
quero leite grosso. Ninguém me ensinou a querer. Mas eu quero. Fico deitada com olhos abertos a ver o teto. Por dentro é a obscuridade. Um eu que pulsa já se forma. Há girassóis. Há trigo alto. Eu é.

Ocorreu-me de repente que não é preciso ter ordem para viver. não há padrão a seguir e nem há o próprio padrão: nasço.

Vou fazer um adaggio. Leia devagar e com paz. É um largo afresco. Nascer é assim:
Os girassóis lentamente viram suas corolas para o sol. O trigo está maduro. O pão é com doçura que se come. Meu impulso se liga ao das raízes das árvores.
Nascimento: os pobres têm uma oração em sânscrito. Eles não pedem: são pobres de espírito. Nascimento: os africanos têm a pele negra e fosca. Muitos são filhos da rainha de Sabá com o rei Salomão. Os africanos para me adormecer, eu recém-nascida, entoam uma lengalenga primária onde cantam monotonamente que a sogra, logo que eles saem, vem e tira um cacho de bananas.

Porque às cinco da madrugada de hoje, 25 de julho, caí em estado de graça.
Foi uma sensação súbita, mas suavíssima. A luminosidade sorria no ar: exatamente isto. Era um suspiro do mundo. Não sei explicar assim como não se sabe contar sobre a aurora a um cego. É indizível o que me aconteceu em forma de sentir: preciso depressa de tua empatia. Sinta comigo. Era uma felicidade suprema.
Mas se você já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte. O estado de graça de que falo não é usado para nada. é como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe e
existe o mundo. Nesse estado, além da tranqüila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão leve. É uma lucidez de quem não precisa mais adivinhar: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não me pergunte o quê, porque só posso responder do mesmo modo: sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma em um dom. E se sente que é um dom porque se está se experimentando, em fonte direta, a dádiva de repente indubitável de existir milagrosamente e materialmente.
Tudo ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação matemática das coisas e da lembrança de pessoas. Passa-se a sentir que tudo que existe respira e exala um finíssimo esplendor de energia. A verdade do mundo, porém, é impalpável.
Não é nem de longe o que mal imagino deve ser o estado de graça dos santos. Este estado jamais conheci e nem sequer consigo adivinhá-lo. É apenas a graça de uma pessoa comum que a torna de súbito real porque é comum e humana e reconhecível. As descobertas nesse sentido são indizíveis e incomunicáveis. E impensáveis. É por isso que na graça eu me mantive sentada, quieta, silenciosa. E como em uma anunciação. Não sendo porém precedida por anjos. Mas é como se o anjo da vida viesse me anunciar o mundo.
Depois lentamente saí. Não como se estivesse estado em transe - não há nenhum transe - sai-se devagar, com um suspiro de quem teve tudo como o tudo que é. Também já é um suspiro de saudade. pois tendo experimentado ganhar um corpo e uma alma, quer-se mais e mais. Inútil querer: só vem quando quer e espontaneamente.”

Quando se vê, o ato de ver não tem forma - o que se vê às vezes tem forma, às vezes não. O ato de ver é inefável. E às vezes o que é visto também é inefável. E é assim certa espécie de pensar-sentir que chamarei de "liberdade", só para lhe dar um nome. Liberdade mesmo - enquanto ato de percepção - não tem forma. E como o verdadeiro pensamento se pensa a si mesmo, essa espécie de pensamento atinge seu objetivo no próprio ato de pensar. Não quero dizer com isso que é vagamente ou gratuitamente. Acontece que o pensamento primário - enquanto ato de pensamento - já tem forma e é mais facilmente transmissível a si mesmo, ou melhor, à própria pessoa que o está pensando; e tem por isso - por ter forma - um alcance limitado. Enquanto o pensamento dito "liberdade" é livre como o ato de pensamento. É livre a um ponto que ao próprio pensador esse pensamento parece sem autor.
O verdadeiro pensamento parece sem autor.

Estou triste. Um mal-estar que vem do êxtase não caber na vida dos dias. Ao êxtase devia se seguir o dormir para atenuar a sua vibração de cristal ecoante. O êxtase tem que ser esquecido.
Os dias. Fiquei triste por causa desta luz diurna de aço em que vivo. Respiro o odor de aço no mundo dos objetos.

Eu é que estou escutando o assobio no escuro. Eu que sou doente da condição humana. Eu me revolto: não quero mais ser gente. Quem? quem tem misericórdia de nós que sabemos sobre a vida e a morte quando um animal que eu profundamente invejo - é inconsciente de sua condição? Quem tem piedade de nós? Somos uns abandonados? uns entregues ao desespero? Não, tem que haver um consolo possível. Juro: tem que haver. Eu não tenho é coragem de dizer a verdade que nós sabemos. Há palavras proibidas.
Mas eu denuncio. Denuncio nossa fraqueza, denuncio o horror alucinante de morrer - e respondo a toda essa infâmia com - exatamente isto que vai agora ficar escrito - e respondo a toda essa infâmia com alegria. Puríssima e levíssima alegria. A minha única salvação é a alegria. Uma alegria atonal dentro do it essencial.

Simplesmente eu sou eu. e você é você. É vasto, vai durar.
O que te escrevo é um "isto". Não vai parar: continua.
Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.
O que te escrevo continua e estou enfeitiçada."







É isto!

sábado, 10 de julho de 2010

Tanatos

s u l p a
l u s p a
p a l s u
p a s u l
p a s l u
l u p a s
p u s l a
p a l u s
s u p a l
s a p u l
p u s a l
s l a p u
l a p s u
s l u p a
p l a s u
p l u s a
p s a l u
p s u l a
s p a l u
s p u l a
s a l p u


s u l p a l u s p a p a l s u p a s u l p a s l u l u p a s o
p u s l a p a l u s s u p a l s a p u l p u s a l s l a p u o
l a p s u s l u p a p l a s u p l u s a p s a l u p s u l a o
s p a l u s p u l a s a l p u p u l s a p u l s a p u l s a o

domingo, 4 de julho de 2010

[a]sintonia

Quando se é, deixa-se de ser tanta coisa. Melhor mesmo seria não ser, mas como não se pode escapulir deste é, sou isto. Dentro de um, existem vários e tantos e outros universos infinitamente finitos que desabam a cada passada do tempo. Eu, do tipo que corre, foge e se esconde. Não, é bastante, bastantes, ouvir/sentir, mas aquela sinfonia agora já morreu. E tenho todo dever de ser. E tenho todo o direito de deixar de ser.
Não sou, não há, havendo [a]sintonia.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

vício

náusea, reckoner, lemon, existência, ser, moon, água viva, vertigem, ganzá e substituição.

C Em D C Em C
Em D C Em C

............................................................................
......... / s /...............................................................C Em D C Em C
.................................................................................Em D C Em C
............................. / s /..............................................
96 horas ............................C Em D C Em C........................... / s /
...........................................Em D C Em C........................................... / s /

C Em D C Em C............................ / s /..............................entorpecer
Em D C Em C.................................................. / s /........................encantar

nihil
.................nada
..........................................nothing
.........................................................................rien
................................................................................................nichts
................................................................................................vazio
.........................................................................oco
..........................................côncavo
................vácuo
cavo

wake up.
esparramar
justaposto

.......................................................Em D C Em C
Em D A/C# C

Em D C Em C .............................................Em D C Em C

.................................................Em D C Em C
........................................................................................................Em D C Em
/ s /
........................ / s /
.................................................... / s /
............................................................................... / s /
.......................................................................................................... / s /


oscular esparramar volver oscular mar gemer
.................................................ósculo
.................................................................espera
..................................................................................esperma

C Em D A E/G# Em/G
.....................,...Am C B7/D#
.....................................C Am B7 E/G# Em/G
.................................................................Am C B7/D#
..................................................................................C Am B7
.....................................................................................C Em D C Em C


essa é minha rapsódia

Em D C Em C
...........................................................................Em D C Em
.........................................C Em D A
...............................................................................E4 Em E4 Em C7M(6)


E4 Em E4 Em C7M(6)

........................................................................................E4 Em E4 Em C7M(6)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

RECKONER


minha eterna vertigem...

terça-feira, 22 de junho de 2010

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?


E quantos Josés não há? Eu sou um deles, Tallita José a partir de hoje.
Se eu morresse, mas eu não morro, eu sou dura!


Pra mim esse é o poema mais belo da Literatura brasileira, aquele que me espeta como agulha e me arranca uma coisa que eu nunca tive, se é que me entende.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

MonoLogo

Lendo, novamente, A Náusea, decidi compartilhar um monólogo.


“Compro um jornal no caminho. Sensacional! O corpo da pequena Lucienne foi encontrado! Cheiro de tinta, o papel se amarrota entre meus dedos. O ignóbil indivíduo fugiu. A criança foi violada. Encontraram seu corpo com os dedos crispados na lama. Faço uma bola com o jornal; meus dedos estão crispados no jornal; cheiro de tinta; Deus meu, como as coisas hoje existem com intensidade! A pequena Lucienne foi violada. Estrangulada. Seu corpo ainda existe, sua carne pisada. Ela já não existe. Suas mãos. Ela já não existe. As casas. Caminho entre as casas, estou entre as casas, muito teso sobre o calçamento; o calçamento sob meus pés existe, as casas tornam a se fechar sobre mim, como a água se fecha sobre mim sobre o papel em forma de montanha de cisne, eu sou. Sou, existo, penso logo sou; sou porque penso; por que penso? Já não quero pensar, sou porque penso que não quero ser, penso que eu...porque...bah! Fujo, o ignóbil indivíduo fugiu, seu corpo violado. Ela sentiu aquela outra carne que penetrava na sua. Eu...eis que eu... Violada. Um suave desejo sangrento de estupro se apodera de mim por trás, muito suave, por trás das orelhas, as orelhas correm atrás de mim, os cabelos ruivos, eles são ruivos em minha cabeça, uma relva molhada, uma relva ruiva, isso ainda sou eu? E esse jornal ainda sou eu? Segurar o jornal, existência contra existência, as coisas existem encostadas umas nas outras, solto o jornal. A casa brota, ela existe; à minha frente um muro, passo rente a ele, ao longo do longo muro eu existo, em frente ao muro, um passo, o muro existe à minha frente, um, dois, atrás de mim, um dedo que coça sobre minha calça, coça, coça, coça, e puxa o dedo da menina maculada de lama, a lama em meu dedo, que saía do riacho lamacento e torna a cair suavemente, suavemente, amolecia, coçava com menos força que os dedos da menina que foi estrangulada, ignóbil indivíduo, raspavam a lama a terra com menos força, o dedo desliza suavemente, cai de cabeça e acaricia, rolo quente junto a minha coxa; a existência é mole e rola e se sacode, eu me sacudo entre as casas, eu sou, existo, penso, logo me sacudo, sou, a existência é uma queda, não cairá, o dedo raspa a lucarna, a existência é uma imperfeição.”

segunda-feira, 14 de junho de 2010

parei...

parei de pensar sobre o tempo, parei de pensar sobre a vida e principalmente parei de escrever pseudo-arte. parei de sentir o vento e parei de me importar com a literatura ou a filosofia, parei de sentir os objetos gelados na rua, parei de amar o próximo. desejo que todo calor do meu corpo se dissipe completamente e que minha vida pare de me matar e matar o outro. sim, eu estou desistindo; sim, eu estou abrindo mão dos meus credos. não há nada que more em mim que valha alguma pena, não há nada que more fora de mim que valha alguma pena, eu e o universo nos anulamos e não há quem precise de nada. durante muito tempo tentei entender a organização das estrelas sobre a minha cabeça, tentei achar meu caminho pra casa e fiquei sempre à espera de um amanhã que jamais chegará. passei anos me escondendo atrás de poemas ininteligíveis, me escondendo atrás de acordes inaudíveis e frases de efeito, até mesmo em ideologias insensatas. dei importância a quem nem chegou a me enxergar e matei muitos, tantas vezes. feri com ferro quem sempre me protegeu e prestei culto a quem nunca soube meu nome. quero me desprender de tudo: terra, ar, céu, deus e os homens, quero me prender em mim e encarar meu maior medo: a solidão. quero habitar em mim e ser plena de mim e me bastar a mim mesma, preciso testar minhas capacidades. eu estou morrendo. não entendo como as pessoas não enxergam isso se é tão claro, mas mesmo se enxergassem, o que poderiam elas fazer? alguém me ajudaria? naturalmente não. todas essas questões sobre a existência, sobre a essência do homem, essa busca por respostas, essa transcendência do ego, tudo isso ajudou a me enterrar. odeio admitir, mas antes de ser, eu já era isso que sou; essa massa sem forma e sem cheiro, sem gosto. existe uma cratera em mim, algo intampável, impreenchível, de novo inominável. não há nome, não há lugar praquilo que sou e sempre fui assim. não inspiro nada em ninguém, não há quem tenha necessidade de mim e pensar isso me faz ver a necessidade que eu tenho do outro. o mundo é e o homem faz ser, mas eu não sou nem faço ser nada. eu tenho medo. eu me aniquilo ao mesmo tempo que me ponho no centro, eu não me percebo, não sei como sou. preciso parar de pensar pra deixar de existir, tenho que parar de metaforizar e metonimizar cada instante da minha respiração. eu estou perdida em um labirinto que eu mesma construí, e eu sei que jamais alguém me encontrará. parada aqui, a espera daquela que me libertará.

sábado, 12 de junho de 2010

...e o pé.


...simulacro, é a única coisa que eu tenho a te oferecer. uma cópia verossímil da realidade. queria, de fato, poder oferecer-lhe mais, no entanto meu ânimo, minha alma, encontram-se transbordantes de afecção, afetação. causefeito da minha epilepsia.


...três convulsões, três colapsos: esgotamento, falência, morte;

...três coutos, três amparos: ressuscitar, restaurar, restabelecer.


minha percepção tocada, minha sensibilidade brotada da sombra, nascida do outro, ofuscou-me a íris, estragou-me a fleuma e ainda assim quero acreditar que é reversível e temporário. e no centro dessa desordem há uma faísca ardente, embora iconoclasta, de amor, idolatria.


cerne, da ponta para o meio para a pontoutra. verve, imo não me basta, adorno me sufoca. e nesse carrossel de insignificantes essências e insígnias, vaivém de ter-e-não-ter, revés de sabor e insabor, ao invés de desprender-me, atiro-me entre contratempos e contragostos. permaneço des-orientada, des-construída nutrindo ora essência ora ornato.

...minha experiência do presente, a possibilidade de sentir o tempo, de recontar. a recusa da morte matando o outro. queria, de fato, fazer brotar um novo tempo, alvo, ingênuo, mas o miasma que há em mim me impede. peço perdão a ti por ser, seu câncer.















O pior poeta é aquele que escreve pela verve.

domingo, 16 de maio de 2010

Sedução







“É também da distância e do mal-entendido que vive toda sedução.”
Leila Perrone Moisés






...




*Imagem por PC Siqueira

sábado, 15 de maio de 2010




"Uma só frase lhe bastará para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. Depois dessa forte definição, o assunto ficará, se assim posso me expressar, esgotado."




A Queda - Albert Camus








...








*Imagem por Garibaldi

sexta-feira, 14 de maio de 2010


"Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa"



Eu estou doente...

...
Cálice - Milton Nascimento
...
*Imagem por Garibaldi

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Felicidade lisérgica


“O Gato apenas sorriu quando viu Alice. Parecia de boa índole, ela pensou, mas não deixava de ter garras muito longas e um número respeitável de dentes, por isso ela sentiu que deveria ser tratado com respeito”



Felicidade s.f. 1. Estado de quem é feliz; perfeita satisfação interior; aventura, contentamento. 2. Circunstância favorável; boa sorte, bom êxito, bom sucesso, boa fortuna.

Felicidade do latim felix (genitivo felicis) quer dizer - originalmente - "fértil", "frutuoso", "fecundo"

Aquela felicidade está sempre atrelada à inquietude. Toda essa lisergia transborda, vaza por movimentos absurdos e hipnotizantes. Não se entende muito bem a origem nem a finalidade de todas aquelas expressões.
Confesso que é possível sentir medo em meio a toda confusão de pernas, braços, cintura e pescoço.

Tudo vira uma coisa só e se transforma em um bilhão de coisas diferentes.

olho direito está para a esquerda
olho esquerdo está para a direita
não há nariz
sorriso respeitável
perna direita longa demais
perna esquerda nua demais
não há braços
cintura frenética
lábios cardíacos
pés, cabelo e coração também não há

Há somente duas cores que se dissolvem numa malevolência mais do que satânica, alimentada pelo gim, assumindo o controle de cada fibra do seu corpo.

Cinco segundos eternos.

HORROR, DESLUMBRE, PAIXÃO.
...
*imagem por PC Siqueira

sábado, 8 de maio de 2010

quinta-feira, 22 de abril de 2010

nonsense

Polissemia: doença congênita que causa duplo sentido às palavras puras.
E por que não?
As Galáxias, um Não, algumAs Flores do Mal, certAs Coisas. Tudo, absolutamente tudo, sofre com essa terrível doença que assola o mundo literário.
Sintomas mais frequentes: excesso de imagens aéreas, confusão enciclopédica, transtorno significativo, alteração das rotas.

Aviso aos andarilhos verbalistas: Letras a solta!
Assaltam os despreparados e escondem tesouros, roubam sentidos e seqüestram pensamentos, embaralham caminhos e seduzem segredos, matam valores e distorcem histórias.


Poetar
Poeteiro
Poetista
Poetador
Poetarista
Poetainstrumentalista
Poetamador
Poetarecista
Poetilusionista
Poemar
Poematizar
Poemaresia
Poedar


O poeta pode por no porto perto da pedra sua poesia

O verde vivo veda a vida.


Essa aqui é minha morada, meu forte, minha força, minha máscara, minha confusão. Eu faço, desfaço e refaço, construo e desconstruo como quero, crio e desmonto, é o meu espaço, é a minha vida, é meu dom. Nasci pela palavra e com a palavra morrerei. Elas tocam a mim e eu a elas e nos tornamos uma única unidade. As letras chamaram a mim como quem grita por socorro, ninguém pode me arrancar isso.
Algumas veias explodem de um desesperar seco e gélido receando perder essa minha parte.

O tempo tenta ter testa terna!!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

alicerce de papel


Gosto por escrever sobre mim? talvez. Necessidade de escrever sobre mim? mais provável.

Outrora li um texto no mínimo interessante sobre a origem dos mitos. Como a principal função da literatura é a eterna SEDUCERE, não consegui prender-me aos mitos sagrados, mas caminhando pé ante pé pela história, minha estória, descobri que meu alicerce é de papel.
Mircea Eliade disse “o mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada através de perspectivas múltiplas e complementares”.
Não contente em fazer tal afirmação, por vezes absurda aos céticos de plantão, ele acrescentou “o mito, portanto, é um ingrediente vital da civilização humana”
Acreditar em um mito, ingenuinamente concluindo, é construir sobre si um castelo de papel. Aos olhos, é belíssimo, mas à pele é inerte. Acreditar em um mito é garantir sua sobrevivência metafísica, é pseudoproteger-se, é cair num eterno estado entorpecido.

in illo tempore

Arquitetei para mim uma imensidão de idéias e imagens sobre o universo, sobre a origem do universo, meu universo. Ritualizei todos os dias e mantive viva a presença do meu herói. Confiei nos princípios da minha crença e me mantive içada, mesmo sentindo-me, por vezes, mortiça. Mas hoje descobri que meu alicerce é de papel, que absolutamente tudo que acredito é falso. Descobri que minha visão casta, foi castrada.

alteridade
altear
alteração
altercação
alterno


Despir-me de toda percepção, pré-visão, concepção, intuição, opinião, juízo, imagem, conceito, idéia, padrão, fantasia, protótipo, exemplo, ilusão, alucinação, alegoria, molde, utopia, engano, símbolo, insígnia. À morte daquilo que eu sou!


odeio essa Terra.





TORRE DE NÉVOA


Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas, e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo dia.


Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: "Que fantasia,


Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!..."


Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu!...

[Florbela Espanca]






RELIGIÃO -----------------------------RELIGARE




e eu quero me desligar.

domingo, 4 de abril de 2010

ego eu Я ich io je yo i





.minha física e metafísica
.metamorfoseiam-se
.a cada passo das Hôras





..................................................



durante 175.200 horas, 24 minutos e 12 segundos esperei que escrevessem um texto sobre mim, ou uma música para mim ou mesmo me mandassem flores. mas nunca recebi uma carta inesperada, muito menos um ínfimo botãozinho de rosa murcho. então, cansada de só esperar, escrevo umas Letras sobre mim.

se eu quisesse me definir, diria, sem qualquer medo de errar, que sou eu a visagem personificada daquilo que chamam ente em-si. sou toda hiatos justapostos não estáticos. como que um corpo composto por bolhas que cada novo preenchimento é responsável pelo estouro daquilo que já existia.

minha essência é feita e desfeita e nesse jogo de reciclar às vezes retrocedo. entre sujeito e individuo, metáfora e metonímia, me(u) parto e re – parto, simulacro quimérico.


SOU um não-ser cujo NADA é meu principal predicado.




..............................................







- deixo esse texto para todos aqueles entes para-si que, infelizmente, acreditam que mudar é permitir-se influenciar. e faço minhas as perfeitas palavra de Dante:
........................................quem és tu que queres julgar
........................................com vista que só alcança um palmo,
........................................coisas que estão a mil milhas?





............................................................




.............Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
.............Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
.............E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

......................................................................Fernando Pessoa

segunda-feira, 29 de março de 2010

Toda a gente


..................................... Como as folhas somos;
......................................Que umas o vento as leva emurchecidas,
......................................Outras brotam vernais e as cria a selva,
......................................Tal nasce e tal acaba a gente humana.
..........................................................................Ilíada
...................
¹Desenho de um artista que assim como muitos tem nesse império vasto sua morada. Eduardo, perfeita arte.

domingo, 14 de março de 2010


“Você tem que primeiro amar o corpo. A alma é imortal, existe muito tempo para a alma.” Paul Verlaine

quarta-feira, 10 de março de 2010

Malditas Moîras



Cloto, Láquesis e Átropos, filhas de Nix (Noite), as Moîras são¹ três anciãs responsáveis por tecerem o destino dos homens e dos deuses. A palavra Moîra vem do grego antigo Μοῖραι que quer dizer “aquela que regula”.

Cloto, do grego Κλωθώ, "fiar", é a mais jovem das Moîras cuja responsabilidade é tecer o fio da vida, o cumprimento do fio determina o tempo de vida dos homens.

Láquesis, do grego Λάχεσις, "sortear", mensura o fio tecido por Cloto e determina o seu destino.

Átropos , do grego Άτροπος, "afastar", é a responsável por cortar o fio da vida, conhecida por ser inflexível.

Uns acreditam na tapeçaria do destino, outros não. Agora, é sob o balanço das Moîras que eu vivo.



¹ - o verbo está no presente porque, às vezes, eu acredito.



domingo, 28 de fevereiro de 2010

Ψέμα

Por que as pessoas “esquecem” de contar a parte mais importante da história?

..........................................................Se tudo o que há é mentira
......................................................... É mentira tudo o que há.
..........................................................De nada nada se tira,
.........................................................A nada nada se dá.
.........................................................................(Fernando Pessoa)

.......................................Embora mintas bem, não te acredito;
.......................................Perpassa nos teus olhos desleais
.......................................O gelo do teu peito de granito...
........................................................................(Florbela Espanca)

“A mentira exige invenção, dissimulação e memória”
Friedrich Nietzsche

Às vezes é necessário desafogar o coração.

Sabe quando você olha um alguém e o mundo pára, o céu empola de estrelas e você consegue ouvir o som do universo girando? Tudo o que você consegue desejar é que aquele momento se eternize, mas aí já é tarde demais, o mundo já está correndo, as estrelas sumiram e o único som que você consegue ouvir é aquele funk – amassa a latinha - meio ao longe.

Talvez possa ser uma curiosidade interessante, para alguns, saber que a palavra PAIXÃO tem sua origem no grego PATHOS, que posteriormente originou também a palavra PATOLÓGICO. Não há como negar, toda paixão é um excesso, de fato, uma doença. Catástrofe catástrofe catástrofe!

Mas sabe o que é pior nessa loucura toda? A ausência da verdade. Todo mundo que me conhece um pouquinho mais, sabe que meu livro favorito, praticamente minha bíblia, é A Náusea, por isso o nome do blog. Esse livro é uma bíblia porque, incrivelmente, eu acho tudo o que eu preciso lá, e dessa vez não foi diferente. O protagonista do romance, Antoine Roquentin, diz sabiamente “seria preciso, antes de mais nada, que os começos fossem começos verdadeiros.”. Mas não existe verdade em começos de paixões, por isso a maioria termina sem mesmo começar. Por que? Simples. Você se apaixona sempre por um espectro, algo que existe somente na sua mente, porque a realidade não condiz, mesmo, com as suas “lembranças”. Resumidamente você se apaixona sempre por mentiras, por isso que a personagem Garcin em Entre quatro paredes diz “eu não vou te amar: eu te conheço demais pra isso.”

Soaria estranho se eu afirmasse que a base de toda relação social é a mentira? As mentiras são mais charmosas, mais instigantes, elas têm o poder de mexer com os sentidos, os pensamentos, e, infelizmente ou não, com os sentimentos. Se suprimissem todas as mentiras do mundo, as profecias Maias cairiam por terra porque muito antes de 2012 (leia, muito antes do século XXI) não mais existiria mundo. As mentiras são sim necessárias para manter a ordem social, então por que tentam ensinar que só devemos dizer a verdade se até isso é mentira?

Mas a grande sacada aqui é, se nos apaixonamos perdidamente por mentiras porque sempre dizemos aquela frase clichê “por que ninguém me contou a verdade?”. Ora bolas, você estava apaixonado por mentiras agora quer requerer a verdade? Com que direito? Não há dúvida, pelo menos para mim, que estar apaixonado é enganar-se, mentir pra si mesmo e permitir que mintam pra você. Sapos nunca viram príncipes quando os beijamos, mas olham pra gente com aqueles grandes olhos, coaxam estranhamente e se vão. É isso! Sem 2% para mais ou para menos.

Nesse período de transição entre sair do emaranhado de mentiras e entrar no poço sombrio da verdade, alguém sempre sai machucado, possivelmente aquele que tem o coração menos traiçoeiro.


Você fica como tapete atrás da porta se perguntando como pôde ter sido tão inocente em acreditar no impossível, você fica lembrando de cada palpitação frenética que o seu coração dava, em vão, e um conjuntinho de palavras não sai da sua cabeça – 'tem uma coisa que eu “esqueci” de contar' –. Aí você corre para se reinventar, se reciclar de fato, enquanto muralhas permanecem imóveis, intocáveis, intactas.

E NO FINAL DO DIA VOCÊ SÓ TEM UM BALDE DE MENTIRAS JUNTO AOS PÉS.





................................................................................................................



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Não há no mundo algo melhor do que AMIZADE

"Não é necessário estar ao lado de alguém o tempo inteiro para que ela faça parte de sua vida e seja importante para você. Amor é algo que vem de dentro" (Iariane Jacobino)

extraído de seu livro 'memórias do meu msn'


Amo muito minha amiga de infância, companheira de sérias, rsrs, desventuras!Viva os 8 anos de amizade!



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Quem nunca sofreu um surto mnemônico involuntário?




"Quais as canções que cantavam as Sereias ou que nome Aquiles adotou quando se escondeu entre as mulheres são questões que, embora intrigantes, não se acham além de toda a conjectura." Sir Thomas Browne




As coisas mais especiais da vida são, indubitavelmente, os detalhes! Ahh, os detalhes! São os detalhes que tornam a existência, vida. As coisas grandes são notadas com facilidade e por qualquer um, mas as coisas pequeninas, bom, essas são percebidas por quem tem uma sensibilidade, de certa forma, exacerbada.
Perceber que uma gargalhada na verdade soa como uma melodia; que um simples movimento parece toda uma coreografia, por muitas vezes, ensaiada; perceber que uma camisa listrada mais parece um arco-íris monocromático; perceber que cada frase parece um poema metrificado; perceber que uma única palavra transformou toda uma vida.
Ahh, os detalhes! Lembramos com mais vivacidade deles do que das coisas “grandiosas”. Cada surto mnemônico que temos tem o poder de ressuscitar um instante demasiado perfeito das nossas vidas.
Quem é capaz de perceber os detalhes carinhosamente cedidos pela natureza tem o privilégio de viver em um mundo austero e para poucos.

Perceber o barulho feito por folhas secas quando as pisamos perceber a mudança de temperatura na palma da mão quando nos aproximamos de quem nos causa palpitações perceber quais cantos da boca são cuidadosamente tocados em um beijo apaixonado perceber quantos segundos de olhares indecentes são necessários para nos fazer enrubescer perceber a posição que o corpo tomou forma antes de abrir os olhos ao acordar perceber as inspirações e as expirações em um tocar de gaita perceber quantos floquinhos de açúcar sobraram no meio dos dentes depois do algodão doce perceber qual parte do seu corpo foi docente tocado pelo vento em um fim de tarde perceber a velocidade do piscar dos olhos quando sentimos medo perceber o modo como nos protegemos no abraço de quem amamos perceber os desenhos que o pôr do sol traceja no céu no crepúsculo da tarde perceber quantos centímetros te separam de quem te faz estremecer perceber quais notas musicais arrepiam sua espinha perceber que noite do ano tem o clima mais agradável perceber que hora do dia o sol fica exatamente sobre sua cabeça perceber quanto tempo o sangue demora pra voltar pra cabeça depois de um susto perceber que cheiro tem o lençol da cama a noite perceber que cada instante é infinito

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A Eternidade

De novo me invade.
Quem? - A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.

...

Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

...

Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.
...

De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem duzer: enfim.

...

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e Paciência,
Suplício seguro

...

De novo me invade.
Quem? - A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.
...................................................... Maio 1872, Arthur Rimbaud

Silêncio

O Silêncio que anestesia
a minh'alma ressequida,
de mortal sinestesia
enche minha vida.
...
O Silêncio que amordaça
o meu pranto interior,
aquilo que me ameaça
versa com rigor.
...
O Silêncio que protege
acena para a morte.
É o mesmo que impede
o lançar da minha sorte!
...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

ALETHEA - Entre quatro paredes



“O amor é bom, não é Garcin? É morno e profundo como o sono. Mas eu não te deixarei dormir.”




É trivial abrir uma obra literária e se deparar com uma enxurrada de contestações sobre os valores e as crenças vigentes na sociedade.

A linguagem literária desconstrói e metaforiza a “nossa verdade” e nos lança em um circulo de desconforto, onde procuramos, a todo momento, acionar nosso mecanismo de racionalização. Riffaterre em “A explicação dos fatos literários” traça exatamente como funciona o mecanismo intrínseco de racionalização da obra, basicamente, ele diz que o leitor tenta trazer para sua realidade aquilo que o texto insiste em transgredir e agredir.

De modo geral é isso que acontece com o fenômeno literário e não seria diferente nesta obra de Jean-Paul Sartre. Mesmo sabendo que sua filosofia existencialista está impregnada em todas as suas criações (ensaios, tratados filosóficos, romances, dramas etc) não é disso que este artigo irá tratar. Dessa vez, passarei longe de todo existencialismo humanista e tratarei de uma única questão: ALETHEA.

Na Idade Média, a tão temida Igreja Católica pintava ao longo das cidades imagens aterrorizantes do inferno. Demônios, fogo, calor, escuridão, grelhas, correntes, carrascos, enxofre, sofrimento, solidão etc, todos esses elementos são sinônimos dos castigos infernais. Mas essa imagem, construída e mantida por séculos é, em uma página, desmascarada, ridicularizada e desconstruída dentro da ação teatral.

Entre quatro paredes é um drama escrito no final da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente em 1944, que trata de uma anamorfose do inferno tal qual conhecemos. O inferno é continuamente claro, muito quente de fato, mas ausente de todas as figuras macabras ao qual estamos acostumados. Mais simplesmente, e como o próprio drama diz, é um salão estilo Segundo Império, mobiliado com objetos da época que recebe linearmente três ausentes (designação para mortos dada por uma das personagens: Estelle). À medida que eles se conhecem as relações vão se ‘acalorando’ e cada um passa a ser o carrasco do outro, tudo por conhecerem a verdade que os levaram ali.

* Michael Riffaterre diz que “A experiência literária é um descolamento dos sentidos/expressões habituais.”


Em O mito da caverna, Platão usa o Sol, a claridade, para metaforizar a verdade, o conhecimento, ele mostra isso como algo desejoso, algo, de fato, bom. No entanto Sartre transforma essa claridade, literalmente, em um inferno. Ele destrói com um mesmo movimento dois valores sociais que estão impregnados na cultura mundial desde o começo dos tempos:

1) Não é necessário que exista um inferno, fisicamente constituído, para que haja sofrimento eterno. O inferno então seria apenas uma metáfora para o próximo paradigma quebrado por ele.

2) A verdade sempre foi cultuada pelas civilizações, tida sempre como virtude e caminho para a felicidade. Mas nesta obra, a verdade é a personificação da tortura e sofrimento. Acaba então por ilustrar o caráter hipócrita dos sujeitos, que suplicam por verdade, mas não querem trazê-la à tona.


Fantástico, como só ele consegue ser, Jean-Paul Sartre trás de forma sutil e sufocante, concomitantemente, aquilo que nos incomoda, a linguagem permite que o nosso Doppelgänger borbulhe em cada página.