quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Análise do poema "Intervalo" - Jhn


Grupo de isotopias:
Claras: -dia -vida -vida
Imparciais:- querer - ponto de vista -vá
Escuras: - morrer - desistir - deixa
Ligação: - cada - mais - mas -lá -não

Níveis de Análise Poética:

Nível mórfico:
A cada dia desisto mais da vida. (substantivo)
Não do ponto de vista de querer morrer. (substantivo/verbo)
Mas do ponto de vista de desistir... (substantivo)
Aah.. deixa pra lá, (verbo)
Vá viver. (verbo)

Nível fônico:
A cada dia desisto mais da vida. (recorrência em => /a/)
Não do ponto de vista de querer morrer. (recorrência em => /e/ /o/)
Mas do ponto de vista de desistir... (recorrência em => /e/ /o/)
Aah.. deixa pra lá, (recorrência em => /a/)
Vá viver. (recorrência em => /a/ /i/ /e/)

Nível sintático:
A cada dia (EU) desisto mais da vida. (conjugação em primeira pessoa)
Não do ponto de vista de querer morrer.
Mas do ponto de vista de desistir...
Aah... deixa pra lá,
(VOCÊ) Vá viver. (conjugação em segunda pessoa)

Nível semântico:
A cada dia (EU) desisto mais da vida. /a/ (grito) (desabafo) (conjugação em primeira pessoa)
Não do ponto de vista de querer morrer. /e/ /o/ (recolhimento)
Mas do ponto de vista de desistir... /e/ /o/ (ressurgimento)
Aah... deixa pra lá, /a/ (grito)
(VOCÊ) Vá viver. /a/ /i/ /e/ (equilíbrio) (silêncio) (conjugação em segunda pessoa)

A análise do sentindo do poema parte em principio dos dados mórficos recolhidos. O nível mórfico se apresenta semi-equilibrado, tendo 7 verbos e 6 substantivos, no entanto a maior quantidade vai para a de verbos o que automaticamente expressa uma ação e não uma imagem como seria se os substantivos estivessem em maior quantidade. Os sons expressados pelas vogais mais recorrentes mostram o ritmo e a entonação dos versos, além de descrever a ação (identificada no nível anterior), logo temos: 1º estrofe recorrência em /a/, expressa um grito de desabafo; 2º estrofe recorrência em /e/ /o/, expressa retraimento; 3ª estrofe recorrência em /e/ /o/ expressa uma condição; 4º estrofe recorrência em /a/ expressa um grito de desespero por não saber se expressar; 5ª estrofe recorrência em /a/ /i/ /e/ expressa um equilíbrio (silêncio) vindo de um conselho.
O nível sintático revela o modo como a ação descoberta pelo nível mórfico e descrita pelo nível fônico se dá. Na primeira estrofe temos uma oração em primeira pessoa, já na quinta estrofe, dentro da mesma construção poética, temos uma oração em segunda pessoa. Isso caracteriza simplesmente um diálogo. Eis a ação do poema.
Como conclusão pode-se dizer que o poema trata de uma confissão/desabafo sobre a sua condição de vida, e a última estrofe seria um conselho feita pelo observador.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Último post (filosófico) do ano. Esperando 2010


“A minha vida está toda atrás de mim. Vejo-a inteira, vejo-lhe a forma e os lentos movimentos que me trouxeram até aqui. Pouco há de dizer dela: é uma partida perdida, eis tudo. Há três anos que entrei em Bouville, solenemente. Tinha perdido o primeiro jogo. Quis jogar o segundo, e perdi também: perdi a partida. Ao mesmo tempo, aprendi que se perde sempre. Só os safados é que julgam ganhar. Agora vou fazer como Anny, vou sobreviver. Comer, dormir. Dormir, comer. Existir lentamente, suavemente, como aquelas árvores, como uma poça de água, como o assento vermelho do elétrico.” (p. 196)

A Náusea - J-P Sartre



segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Pai

Pai,
criaste-nos Tua imagem e semelhança
deste-nos Teu fôlego de vida
mas em mim já não arde esperança
de permanecer nessa existência sofrida

Pai,
no princípio eras Tu o verbo
e se fizes-Te santa carne viva
eu apenas fiz-me servo
para ter direito a vida

Mas Pai,
a Ti não me assemelho
minha carne não é santa
peço que de gozo
Vós possa me encher
e que carne viva
um dia eu possa ter.


Começando a compor minha antologia...

Reviravoltas e retrocessos





Eram exatamente três horas da manhã, numa data esquecida por sua mente mortiça.Como um estrondo, acordou.A noite fora repleta de pensamentos tempestuosos sobre a essência da vida. As questões pareciam brotar e os pensamentos esvoaçavam pelo quarto gélido. A escuridão trazia consigo o amargo gosto do fel e a brisa que por ali passava deixava rastros de ambrosia pelo ar. Os lençóis macios ofertavam a sensação de conforto, mas era apenas impressão. Na atmosfera daquele lugar esquecido pelos homens podia-se ouvir à curta distância pequenos sons que aos poucos tomavam conta do lugar. Uma mistura de agonia, tristeza, alegria e liberdade falsa.Tentativas de movimentos delicados, mas nada adiantava. Era tão incomodo sentir-se imóvel, apenas recebendo os estímulos periféricos. Como se tivesse tido a única oportunidade de contemplar o real. Não mais que de repente surgiu à sua frente uma esplendorosa luz branca, trazendo com ela imagens de pequenas coisas esquecidas por todos. Ignoradas por sarem pequenas. No mesmo instante tudo sumiu e apenas o que se ouvia era um irritante tic tac de um relógio velho. Acabou por perceber que o tempo estava indo, determinado a preservar aquela imobilidade.Sua mente padeceu e tudo ficou turvo, seu corpo foi pressionado por uma força estranha. A dor tomava conta e não era mais possível aguentar toda aquela intensidade.Os olhos que antes insistiam em permanecer fechados abriram-se de uma só vez. E o inesperado aconteceu. Seu corpo estava finalmente livre, embora cansado. A visão mudou indubitavelmente. Tudo em volta parecia flutuar.Mas eram quatro horas da manhã. Virou-se para o lado e continuou a dormir.

sábado, 12 de dezembro de 2009

...

"É necessário permitir-se fracassar". Piero Eyben

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Canção da mais alta torre


Inútil beleza
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah! que venha o instante
Que as almas encante.

Eu me digo: cessa,
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
Do que quer que seja.
Não te impeça nada,
Excelsa morada.

De tanta paciência
Para sempre esqueço:
Temor e dolência
Aos céus ofereço,
E a sede sem peias
Me escurece as veias.

Assim esquecidas
Vão-se as Primaveras
Plenas e floridas
De incenso e de heras
Sob as notas foscas
De cem feias moscas.

Ah! Mil viuvezas
Da alma que chora
E só tem tristezas
De Nossa Senhora!
Alguém oraria
À Virgem Maria?

Inútil beleza
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah! que venha o instante
Que as almas encante!

Rimbaud, maio 1872


*tradução por Augusto de Campos in Rimbaud Livre

SARTRE!




em homenagem ao mestre*

Decidi reservar aqui um espaço especial para o meu filósofo, romancista, ensaísta, dramaturgo etc favorito. Dispenso biografia.
Durante um longo tempo na construção do espaço filosófico universal a questão do ser foi concebida, debatida e por muitas vezes definida. A questão do ser é a base de toda filosofia: “Quem és tu?”¹ (LARGATA, 2007, p. 60), essa é sempre a pergunta que nos fazem, desse modo ou em outras formatações.
Listando os principais filósofos que discorreram sobre essa questão temos: Platão, Kant, Sócrates, Pascal, Descartes, Husserl, Nietzsche, Jaspers, Heidegger, Kierkegaard e Sartre. Todos eles traçaram linhas de pensamentos diferentes embora semelhantes em alguns pontos. No entanto, o grande revolucionário quanto essa questão foi Jean-Paul Sartre, filósofo francês e ícone da corrente existencialista.
Mas qual é a grande diferença entre Sartre e os demais? Simples. Ele confronta toda a fé social e aniquila as forças transcendentais que constroem, supostamente, aquilo que gostamos de chamar “destino”. Ou seja, a questão do ser é tida como uma essência infinitamente definida pelo homem após sua existência. Para clarear um pouco essa idéia, podemos comparar a filosofia descarteana e a filosofia sartreriana.
Descartes diz: Compreendi por aí que era uma substancia cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de nenhum lugar, nem depende de qualquer coisa material. De sorte que esse eu, isto é, a alma, pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo e, mesmo que é mais fácil de conhecer do que ele, e, ainda que este nada fosse, ela não deixaria de ser tudo o que é. (DESCATES, 2002. s.p.)
Sartre diz: o homem é tal qual ele se quer, o homem não é senão o que ele se faz. (SARTRE, 1978, p.86)
Claro e simples, ele nega a Deus e joga o homem em uma profunda fenda de liberdade exacerbada. Como ele mesmo diz, “estamos condenados a ser livres”. O ser de Sartre é livre e desprovido de qualquer ajuda paranormal, portanto único responsável pelo quê é e pelo quê tem.






¹Questão do dialógo entre a Lagarta e Alice em Alice no País das Maravilhas


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Anniversarius


Anniversarius: annus (ano) + vertere (voltar)
Palavra de origem latina que quer dizer "aquilo que volta todos os anos".


Será que existe uma palavra específica para aquilo que volta todos os dias?
Diemversarius: diem (dia) + vertere (voltar)??????


Minha mente é um espiral de recordações!

Post de boas vindas - Literatura Anacrônica


Flor d’Alma da Conceição Espanca participa, em termos didáticos, da escola Modernista iniciada em 1915. Compõe uma série de poemas que não são apreciados pela crítica e seu reconhecimento como escritora talentosa vem, como de costume entre os que não suprem as necessidades da época, somente depois de morta. Os poemas florbelianos borbulham de melancolia e pessimismo, estes aspectos tão latentes de sua obra quase que nos transportam para o período literário em que o egocentrismo e o sentimento de solidão predominavam a criação literária: o Romantismo. Os românticos preferem a fantasia à realidade, debruçavam-se sobre os fantasmas de seus desejos, negam a vida e anseiam a morte como resolução para seus conflitos, são demasiado egocêntricos e escondem-se dentro de seu próprio mundo construído por ilusões de uma possível vida imaculada, idealizam tanto, que sofrem infinitamente por algo que nunca conseguirão verdadeiramente alcançar. Seus versos têm, inegavelmente, todo o sentimento melancólico que impregnava os textos criados no Romantismo. Embora possamos afirmar que essa visão de mundo está presente da obra da poetisa, não podemos deslocá-la de seu tempo e afirmar que sua criação tem exclusivamente características românticas e que, por regra, ela faz parte, anacronicamente, desta escola... A arte é livre para ser como quiser,tornar-se com quiser, no tempo que quiser, como diria o excelentíssimo Fernando Pessoa 'ser é nada, tornar-se é tudo".


"Eu sou a que no mundo anda perdida
Eu sou a que na vida não tem norte
Sou a irmã do Sonho e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida..."
Florbela Espanca